Clayface (Warner Bros. Pictures, 2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Crítica | Cara-de-Barro (Clayface)

Clayface tem potencial para ser uma das experiências mais particulares do novo DCU.

O filme dirigido por James Watkins, com roteiro de Mike Flanagan e Hossein Amini, aposta em uma abordagem de horror corporal dentro do universo da DC, acompanhando o ator Matt Hagen após uma agressão que destrói seu rosto e o leva a experimentar um tratamento regenerativo de consequências monstruosas. A produção se distancia da estrutura habitual dos filmes de super-heróis ao privilegiar a degradação física, a obsessão pela imagem e a transformação de um personagem trágico em uma figura aterrorizante, concedendo uma sensibilidade a mais à respeito do “passado do vilão”.

A origem de Clayface nos quadrinhos ajuda a compreender a riqueza dramática dessa adaptação. O personagem surgiu em Detective Comics #40, de 1940, como Basil Karlo, um ator de filmes de terror que assume uma identidade criminosa. Ao longo das décadas, diferentes personagens adotaram o nome, entre eles Matt Hagen, apresentado em 1961 em uma história escrita por Bill Finger e ilustrada por Sheldon Moldoff. Matt é retratado como alguém cuja capacidade de mudar de forma também coloca em xeque a estabilidade da própria identidade. Integrante do novo DCU, liderado por James Gunn e Peter Safran, a produção também demonstra que esse universo pode encontrar caminhos narrativos fora das tradicionais jornadas de heróis.

Clayface (Warner Bros. Pictures, 2026) | Imagem: Reprodução TMDB

O que torna o horror de Clayface particularmente interessante é a relação entre a profissão de Matt Hagen e a natureza de sua transformação. Como ator, sua sobrevivência profissional depende de um rosto capaz de conquistar o olhar alheio. Quando essa aparência é destruída, não se perde apenas a beleza ou o reconhecimento público, mas o próprio instrumento de trabalho que lhe permitia existir diante das câmeras. A metamorfose corporal nasce desse conflito entre a necessidade de recuperar o controle e a impossibilidade de determinar o que seu organismo fará a seguir. A monstruosidade se torna a consequência física de sua tentativa de voltar a ser quem era.

A decisão de transformar um personagem da DC em protagonista de um horror trágico também permite explorar uma dimensão menos habitual de Gotham. Em vez de fazer da cidade apenas o território de criminosos extravagantes e vigilantes mascarados, a narrativa pode observar o ambiente que produz e descarta indivíduos em função de sua utilidade. A escolha do gênero oferece uma dimensão mais íntima e perturbadora em comparação aos outros filmes que comõem o DCU.

Clayface (Warner Bros. Pictures, 2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Os efeitos especiais são decisivos porque, em uma história como essa, a credibilidade do horror depende de fazer o impossível parecer fisicamente presente, e o CGI consegue transmitir a sensação de que a própria estrutura do corpo perdeu sua estabilidade. A textura, consistência e alterações dos contornos humanos são elementos capazes de provocar uma repulsa diferente daquela produzida por criaturas inteiramente fantásticas, justamente porque partem de algo que o espectador reconhece como familiar. As cenas de violência gráfica são extremamente convincentes, capaz de fazer os expectadores desviarem o olhar por conta da tensão e do realismo.

Clayface (Warner Bros. Pictures, 2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Em suma, Clayface tem potencial para ser uma das experiências mais particulares do novo DCU justamente por encontrar no antagonista uma tragédia que não depende da presença de Batman para adquirir significado. A trajetória de Matt Hagen permite aproximar o universo dos quadrinhos de questões complexas e muito específicas; e isso dá ao horror corporal uma função narrativa mais rica do que a simples provocação visual, pois transforma cada alteração física em parte do conflito central do personagem.

 

★★★★☆

Crítica por Pedro Gomes.

 

Cara-de-Barro | Clayface
Estados Unidos, 2026, 109min.
Direção: James Watkins
Roteiro: Mike Flanagan, Hossein Amini
Elenco: Tom Rhys Harries, Naomi Ackie, Eddie Marsan
Produção: James Gunn, Peter Safran, Matt Reeves
Direção de Fotografia: Rob Hardy
Música: Volker Bertelmann

Não perca nenhum conteúdo! Siga o Vi nos Filmes no Instagram, Youtube e Tiktok