Vicentina Pede Desculpas - Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Crítica | Vicentina Pede Desculpas

Um retrato avassalador e doloroso sobre luto e remorso.

Em um dos filmes mais aguardados do ano, Gabriel Martins conta a história de Vicentina, mãe de um motorista de ônibus envolvido em um acidente de trânsito em Belo Horizonte. O motorista de ônibus Wesley perde o controle da direção ao cruzar um viaduto fazendo o veículo despencar para a via de baixo. Mas, quanto mais a polícia investiga, mais evidências surgem para provar que o acidente que matou quase todos os passageiros, incluindo o motorista, na verdade foi uma tentativa sucedida de suicídio. Vicentina então decide buscar as famílias das vítimas para pedir desculpas e tentar seguir em frente.

Em Marte Um, a atriz Rejane Faria já havia demonstrado uma capacidade extraordinária de transmitir afeto por meio de pequenos gestos. Aqui, Gabriel Martins a coloca diante de um desafio completamente diferente: interpretar uma mulher de 75 anos cuja existência parece ter sido devastada pela perda do filho.

Vicentina Pede Desculpas – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

O mais interessante é que a tristeza de Vicentina não precisa ser constantemente verbalizada. Ela está na maneira como a personagem olha para as pessoas, demora a reagir e parece carregar um peso que torna cada movimento mais difícil. O rosto da atriz funciona manifesta o luto antes mesmo de ele se transformar em palavras. A caracterização também merece destaque. Maquiagem, figurino e composição corporal trabalham juntos para construir uma mulher muito mais velha do que a atriz, sem que a personagem pareça apenas uma jovem envelhecida artificialmente. Em entrevista, Rejane contou que a construção começou pela aparência e pelo corpo, antes de avançar para a dimensão interior da personagem. A atriz não interpreta apenas a tristeza de uma mãe. Ela incorpora o efeito do tempo, da solidão e de uma dor que parece ter se instalado permanentemente no corpo.

Vicentina não enfrenta somente a ausência do filho. Ela precisa lidar com a possibilidade de que ele tenha provocado intencionalmente a tragédia que matou tantas pessoas, transformando o luto em um conflito moral. Ao procurar as famílias das vítimas para pedir desculpas, ela assume uma responsabilidade que não é necessariamente sua. Ela não causou o acidente, mas parece sentir que precisa responder por ele, como se a maternidade a tornasse responsável até mesmo pelas escolhas que não conseguiu compreender ou impedir. A culpa que a personagem carrega prolonga seu sofrimento. Enquanto o luto exige aprender a viver com uma ausência, a culpa mantém a personagem presa à tentativa de encontrar uma explicação que torne aquela ausência compreensível.

Vicentina Pede Desculpas – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

O filme recusa deliberadamente qualquer alívio que permita ao espectador se distanciar da experiência da personagem principal. Não se trata apenas de contar uma história triste, mas de construir uma experiência em que a tristeza se torna o próprio ambiente emocional da narrativa. A duração também contribui para isso: somos obrigados a permanecer com a personagem, acompanhando seus deslocamentos, suas tentativas e suas frustrações sem que o filme ofereça uma saída fácil, e essa escolha exige bastante do espectador. O sofrimento prolongado pode se tornar exaustivo, mas essa exaustão é necessária para aproximar a experiência cinematográfica daquilo que a personagem vive. O filme parece encontrar sua humanidade justamente na recusa de transformar o sofrimento em uma experiência mais confortável para quem assiste.

A muleta assume uma dimensão simbólica particularmente delicada na trajetória de Vicentina, não por representar sua limitação física como sinônimo de fragilidade, mas pela maneira como o filme associa esse objeto à dificuldade emocional da personagem em encontrar um caminho depois da perda. Gabriel Martins constrói uma imagem de rara sensibilidade ao final do longa, sugerindo que seguir em frente não significa superar o luto ou abandonar as marcas do passado, mas permitir-se existir para além deles. É uma metáfora poderosa justamente porque não depende de palavras; a última cena da obra é um dos finais mais bem construídos da história do cinema brasileiro.
Vicentina Pede Desculpas – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Vicentina Pede Desculpas reafirma a maturidade de Gabriel Martins como um dos grandes realizadores do cinema contemporâneo, construindo um retrato devastador sobre a impossibilidade de encontrar respostas para dores que não podem ser reparadas. Amparado pela atuação avassaladora de Rejane Faria, que transforma o luto em uma experiência visceral expressa nos menores gestos, o filme encontra na culpa de uma mãe e na dificuldade de continuar vivendo seus conflitos mais profundos. É uma obra árida, que exige paciência e disposição para permanecer diante do sofrimento, mas cuja potência reside justamente na recusa de oferecer consolos fáceis.

 

★★★★☆

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido no 28º Festival do Rio

 

 

Vicentina Pede Desculpas
Brasil, 2026, 148min.
Direção: Gabriel Martins
Roteiro: Gabriel Martins
Elenco: Rejane Faria, Maíra Azevedo, Thalma de Freitas
Produção: Thiago Macedo Correia, Matheus Gyordano
Direção de Fotografia: Leonardo Feliciano
Música: Tiganá Santana
Classificação: 16 anos

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