Josephine - Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Crítica | Josephine [28º Festival do Rio]

Doloroso e brutalmente épico.

No aterrorizante Josephine, acompanhamos uma menina de oito anos que presencia uma violência sexual em um parque e passa a experimentar o mundo de maneira radicalmente diferente. Como ela é a única testemunha, toda a responsabilidade com relação à prisão do culpado cai sobre o depoimento dela, que pode ser decisivo. Beth de Araújo transforma esse acontecimento em um retrato complexo do trauma, da perda da inocência e da impotência dos adultos diante de uma dor que não conseguem resolver. Em vez de tratar a protagonista apenas como uma vítima, a diretora nos coloca dentro de sua percepção confusa e assustadora da realidade.

A diretora constrói tensão sem depender exclusivamente de reviravoltas, e assim como em Soft & Quiet, o horror se acumula em tempo quase real, por meio de conversas banais, gestos cotidianos e uma escalada gradual da crueldade. Em Josephine, a tensão é mais psicológica: a violência já aconteceu, mas seus efeitos continuam se manifestando na percepção da protagonista.

Josephine – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

A câmera captura a experiência subjetiva dos personagens, evita suavizar situações desconfortáveis e deixa que o espectador sinta a tensão antes de conseguir organizá-la racionalmente. Em Josephine, isso aparece no posicionamento da câmera próximo à altura da menina e na maneira como a presença do agressor invade visualmente sua rotina. O ato de filmar na altura da criança é uma escolha de linguagem cinematográfica que altera não apenas o enquadramento, mas a própria maneira como o espectador experimenta a narrativa e nos mostra como esse horror altera a percepção do mundo.

Ao posicionar a câmera próxima à linha de visão infantil, Beth reduz a perspectiva dominante dos adultos e permite que espaços, rostos e situações sejam percebidos a partir de uma escala diferente, na qual aquilo que parece banal para um adulto pode adquirir proporções ameaçadoras ou incompreensíveis. Essa técnica é especialmente importante em histórias sobre trauma e perda da inocência, pois aproxima o público da vulnerabilidade da criança sem precisar explicar verbalmente seus sentimentos.

Josephine – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

A maior força de Josephine está na precisão com que Beth de Araújo conduz a narrativa por um terreno emocional de extrema complexidade, sem permitir que a intensidade do material se transforme em exploração gratuita do sofrimento. A diretora demonstra um domínio impressionante do ritmo, da tensão e da construção dramática, compreendendo que o impacto de determinadas situações não depende de sua exposição explícita, mas da maneira como são preparadas e sustentadas ao longo do filme. Há uma coragem particular em preservar o desconforto quando seria mais fácil recorrer a explicações ou concessões sentimentais, confiando na inteligência do público para lidar com as contradições apresentadas. O resultado é um trabalho cuja realização artística não se limita à gravidade de seu assunto, mas se revela na segurança com que cada escolha narrativa contribui para uma experiência perturbadora e difícil de esquecer.

Josephine – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Em suma, o longa é um filme que demonstra como o domínio da linguagem cinematográfica pode transformar uma história devastadora em uma experiência de rara potência emocional, sem recorrer a facilidades narrativas ou concessões sentimentais.

 

★★★★⯪

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido no 28º Festival do Rio

 

Josephine
Estados Unidos, 2026, 119min.
Direção: Beth de Araújo
Roteiro: Beth de Araújo
Elenco: Mason Reeves, Channing Tatum, Gemma Chan
Produção: Josh Peters, David Kaplan, Joshua Beirne-Golden
Direção de Fotografia: Greta Zozula
Música: Miles Ross

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