The Debut - Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Crítica | A Grande Estreia (The Debut) [28º Festival do Rio]

Uma experiência que mistura comédia, desconforto psicológico, sátira e absurdo.

O aclamado The Debut fez sua estreia no Rio de Janeiro trazendo uma premissa relativamente simples em uma experiência que mistura comédia, desconforto psicológico, sátira e absurdo. Mona Friedman, uma dona de casa, encontra no teatro uma possibilidade de escapar de uma vida na qual se sente invisível. Ao conquistar um pequeno papel, porém, ela começa a se entregar tão intensamente à interpretação que a fronteira entre personagem e identidade se torna cada vez mais instável.

A obra além de exaltar a transformação que a arte faz nos seres humanos, também investiga o perigo de transformar a busca por reconhecimento em uma obsessão.

The Debut – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Eisenberg já demonstrou talento na direção em seu longa anterior (A Real Pain), que também estreiou nacionalmente no Festival do Rio. Aqui, ele acompanha a desestabilização psicológica das personagens, explorando encenações exageradas e constantes movimentos de câmera. A narrativa começa próxima de uma comédia sobre uma mulher negligenciada e gradualmente se aproxima de algo mais sério, mas sem abandonar o humor. É interessante pensar que, diferentemente de outras comédias, a obra encontra o absurdo não em acontecimentos extraordinários, mas sim na intensidade com que as pessoas reagem à situações banais.

O roteiro à todo momento utiliza o diálogo para gerar dinamismo.Cada frase soa como uma disputa de poder, na qual cada interrupção, provocação, mudança de assunto ou tentativa de controlar a conversa altera o equilíbrio entre os participantes. The Debut encontra no ambiente teatral um terreno fértil para confrontos sobre talento, autenticidade e reconhecimento. A sensação de caos nasce porque ninguém está simplesmente conversando: todos tentam impor uma versão de si mesmos aos demais.

The Debut – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

A atuação de Julianne Moore talvez seja o exemplo mais fascinante dessa relação entre personagem e performance. Mona começa como uma mulher sem experiência teatral, incapaz de compreender as exigências da interpretação, mas isso não significa que Moore precise representar uma atriz ruim de maneira simplesmente desajeitada. Moore faz com que essa aprendizagem seja visível, inclusive nos momentos em que Mona erra, exagera ou parece ridícula. Sua atuação é extraordinária justamente porque consegue representar a falta de domínio técnico da personagem sem perder o domínio técnico da própria interpretação. A inexperiência de Mona é se torna matéria-prima para uma performance que oscila entre o cômico, o constrangedor e o genuinamente comovente.

The Debut – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

No fundo, The Debut é também um filme sobre como construímos identidades, como tentamos convencer os outros de quem somos e como a necessidade de sermos vistos pode nos levar a ultrapassar limites. Em uma comédia extremamente caótica e divertida, Jesse demonstra ter aprimorado sua arte de dirigir longas-metragens.

 

★★★★☆

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido no 28º Festival do Rio

 

A Grande Estreia | The Debut
Estados Unidos, 2026, 105min.
Direção: Jesse Eisenberg
Roteiro: Jesse Eisenberg
Elenco: Julianne Moore, Paul Giamatti, Halle Bailey
Produção: Emma Stone, Dave McCary, Ali Herting
Direção de Fotografia: Drew Daniels
Música: Emile Mosseri, Jesse Eisenberg
Classificação: 14 anos

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