Rose - Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Crítica | Rose [28º Festival do Rio]

Um dos filmes mais ousados e viscerais do 28º Festival do Rio.

O drama dirigido por xx se ambienta após A Guerra dos Trinta Anos (1618–1648), um dos conflitos mais devastadores da história europeia. Ela aconteceu principalmente nos territórios que hoje formam a Alemanha, que naquela época faziam parte do Sacro Império Romano-Germânico, e começou por motivos religiosos, envolvendo católicos e protestantes, mas acabou se transformando também em uma disputa pelo poder político e pela influência na Europa.

A história segue Rose, uma mulher que lutou durante a guerra e agora retorna a um vilarejo rural assumindo a identidade de um homem para reivindicar uma propriedade e conquistar uma autonomia que lhe seria negada caso revelasse quem realmente é. Ao tentar tomar posse da propriedade, Rose é obrigada por um fazendeiro a se casar com sua filha, Suzanna, em troca do direito de permanecer naquela extensa porção de terra.

Rose – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDBO conflito central vai além do segredo da protagonista. Rose não está apenas tentando enganar uma comunidade: está tentando viver em um mundo no qual os direitos, a propriedade, a independência e a autoridade são distribuídos de maneira desigual entre homens e mulheres. Para ter acesso à liberdade, ela precisa assumir justamente a identidade à qual a sociedade concede essa liberdade.

O filme também revela uma contradição fundamental: a sociedade pode tolerar uma mulher enquanto ela cumpre o papel que lhe foi atribuído, mas sua reação muda quando ela reivindica o direito de definir a própria existência. Rose conquista respeito por sua competência, sua força e sua capacidade de administrar a propriedade. Ainda assim, essas qualidades não bastam para protegê-la quando sua identidade passa a desafiar as convenções coletivas.

A fotografia em preto e branco de Gerald Kerkletz elimina qualquer vislumbre de felicidade e reforça a dureza material e moral daquele ambiente. A ausência de cor também dialoga com uma sociedade que tenta reduzir a experiência humana a categorias rígidas e polarizadas, como homem e mulher, permitido e proibido, puro e impuro.

Rose – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

A interpretação de Hüller é avassaladora. Seu corpo permanece rígido, em constante estado de alerta, como se cada gesto estivesse sendo submetido a um julgamento. O espectador acompanha a trajetória de alguém condenada a interpretar um papel pelo resto da vida, sem jamais poder existir plenamente como ela mesma. A câmera insiste nos primeiros planos da atriz, expondo suas cicatrizes, suas feições marcadas pelo desespero e os vestígios de uma batalha que, apesar de todo o tempo transcorrido, está longe de terminar.

A terra em que Rose vive é ampla, remota e saudável. Essa contradição é essencial para o caráter visceral do filme. A opressão não é representada apenas por uma prisão física, mas pela impossibilidade de existir sem ser observado, interpretado e julgado. O vilarejo funciona como um organismo coletivo: cada suspeita alimenta a seguinte, cada desvio ameaça a estabilidade da comunidade e a necessidade de pertencimento acaba se tornando um instrumento de coerção.

Rose – Festival do Rio (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

É isso que faz Rose ultrapassar o drama de época: a violência que retrata não pertence exclusivamente ao século XVII. O filme mostra como uma sociedade pode defender a ordem, a tradição e a moralidade enquanto transforma a liberdade de determinadas pessoas em algo negociável. Sua atmosfera é visceral porque não permite que essa violência seja percebida como um problema distante ou meramente histórico. Ela está entranhada na arquitetura, nos sons, nos olhares e nos próprios gestos cotidianos. Mesmo se passando à mais de 300 anos, sua premissa continua assustadoramente atual.

 

★★★★⯪

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido no 28º Festival do Rio

 

 

Rose
Alemanha, Áustria, 2026, 94min.
Direção: Markus Schleinzer
Roteiro: Markus Schleinzer, Alexander Brom
Elenco: Sandra Hüller, Caro Braun, Marisa Growaldt
Produção: Johannes Schubert, Karsten Stöter, Philipp Worm
Direção de Fotografia: Gerald Kerkletz
Música: Tara Nome Doyle

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