A Odisseia - Universal Pictures | Imagem: Reprodução TMDB

Crítica | A Odisseia (The Odyssey)

Deslumbrante e imerviso, A Odisseia recria uma história de mais de 3000 anos na maior qualidade cinematográfica possível.

 

"Você está sofrendo por um pai que sequer conheceu."

A Odisseia de Christopher Nolan é um evento cinematográfico que chega com o peso de 3.000 anos de história e o talento de quem sabe exatamente o que quer fazer: uma aventura épica, visualmente irretocável, que recria o poema de Homero com louvor aventureiro, mas sem a pretensão de explorar sua profundidade filosófica ou emocional.

O filme abre com Travis Scott contando a história de Odisseu, oito anos após a Guerra de Troia. É uma escolha ousada e contemporânea, que já sinaliza que Nolan não está interessado em uma adaptação acadêmica, mas em uma imersão visceral no universo mitológico. O filme oferece uma excelente contextualização para quem não conhece a Ilíada, transportando o espectador para a Grécia arcaica com uma naturalidade que poucos filmes de fantasia ou mitologia conseguem alcançar. É impossível desgrudar os olhos da tela.

A Odisseia – Universal Pictures | Imagem: Reprodução TMDB
"Sua lembrança não tomará decisões por mim."

A fotografia em IMAX é o grande trunfo do filme. Nolan se supera em cada quadro, utilizando a tecnologia para entregar profundidade e imersão como nenhuma outra é capaz. Cada paisagem, desde o mar revoltoso às ilhas paradisíacas ganha uma dimensão tátil que faz o espectador sentir o sal e o vento. A escolha de utilizar locações reais e abolir o uso de CGI demonstra o comprometimento do diretor em contar a história da forma mais palpável e realista possível. O color grading, com forte presença do azul e do laranja, reforça a dualidade entre o céu e o mar, o perigo e o refúgio, a memória e o esquecimento, e faz com que as paisagens noturnas se assemelhem de pinturas.

Os flashbacks do Cavalo de Troia estão na mais insana qualidade. São imagens de uma brutalidade pictórica, quase barrocas, que capturam o horror e a glória da guerra em poucos segundos. É ali que vemos Odisseu em seu momento mais sombrio, e é ali que o filme planta a semente de sua culpa. O protagonista reflete ao longo da narrativa sobre sua traição com a lei de Zeus ao criar o Cavalo. Essa astúcia que o tornou herói é também a razão de sua perdição, uma metáfora para seus dez anos de erro e um castigo divino por ter subvertido as regras da guerra com engano. A inteligência de Odisseu é sempre retratada, mas não com tanta profundidade como na história original. Nolan prefere mostrar suas ações a dissecar sua mente, o que empobrece um pouco o personagem, mas mantém o ritmo ágil da aventura.

A Odisseia – Universal Pictures | Imagem: Reprodução TMDB
"É tudo que você deseja que seja, e depois tudo que você deseja não ter desejado. 
O que você mais quer sempre será o que menos pode ter.
E o que menos pode ter sempre será o que você tinha e perdeu."

O mito de Circe é, sem dúvida, um dos ápices do filme. Recriado apenas com efeitos práticos, essa pequena parte da obra é estruturada de uma forma magistral, demoníaca e fascinante. A transformação dos homens em porcos é assustadoramente real, e carrega consigo uma breve filosofia que Nolan insere com sutileza: os soldados, após anos de guerra, matam e abusam de outros humanos como seres sem valor. Tornam-se porcos porque a guerra em si já faz com que as pessoas ajam como porcos. É um momento de horror moral e físico que condensa a crítica à brutalidade humana em uma única imagem. Podemos inclusive traçar um paralelo com William Golding, escritor que, ao vivenciar os horrores da Segunda Guerra Mundial, escreveu “O Senhor das Moscas” após perder a esperança na humanidade. O livro retrata o declínio de uma sociedade levando em consideração a filosofia de Thomas Hobbes e é uma resposta clara e uma crítica ao clássico A Ilha de Coral, de R. M. Ballantyne.

Outro momento de breve densidade filosófica surge na relação de Odisseu com a flor de lótus, onde Nolan explora a “benção do esquecimento”. A flor de lótus oferece a Odisseu a possibilidade de abandonar a dor da memória,  a guerra, as perdas e a culpa. Mas esquecer Ítaca é esquecer quem se é, e além das dores, os seus amores. O filme trata esse instante com uma poesia melancólica: o alívio do esquecimento é tentador, mas é também uma morte em vida. A reflexão sobre o peso da memória e o desejo de escapar dela é um dos momentos mais belos e silenciosos da produção.

A Odisseia – Universal Pictures | Imagem: Reprodução TMDB
"Você quer se lembrar, mas e se sua lembrança destruir sua felicidade?"

Os diálogos são absurdamente memoráveis e poéticos, com frases que ecoam como versos homéricos modernos. Ainda assim, a crítica mais justa ao filme é que ele carece de emoção. Nolan entrega uma história de mais de 3.000 anos contada com louvor aventureiro, mas sem dar profundidade aos personagens. Não há tempo para que Odisseu, Penélope ou Telêmaco respirem como seres humanos completos. Telêmaco, em particular, sofre por um pai que sequer conheceu, mas que sabe que deve herdar um legado do qual não faz ideia de qual seja, uma angústia existencial que o filme apenas tangencia.

Porém, seria impossível acrescentar essa profundidade em um filme tão curto, dada a vastidão do poema e a intenção do diretor, que sempre foi retratar a aventura com locações reais e o máximo de realidade possível, sem uso de CGI. Para que isso fosse possível, o filme teria que ultrapassar a marca de 7 horas e teria um orçamento inimaginável.

A trilha sonora de Ludwig Göransson é avassaladora com toques que parecem vir de um templo grego em chamas. É a melhor trilha de Nolan desde Interestelar, e Göransson entrega uma das partituras mais memoráveis do ano, que gruda na cabeça e potencializa cada cena como poucas conseguem.

A Odisseia – Universal Pictures | Imagem: Reprodução TMDB

A Odisseia é tudo o que você espera e mais um pouco. O filme se torna um clássico instantâneo pela sua preciosidade e precisão técnica. Pode desagradar quem espera uma adaptação focada em toda a profundidade que o poema oferece, mas para quem se entrega à experiência, Nolan entrega um épico grandioso, corajoso e visualmente deslumbrante, que prova que o cinema ainda pode nos fazer viajar no tempo e no espaço sem precisar de magia digital, apenas com a força das imagens e do silêncio.

 

★★★★☆

Crítica por Pedro Gomes.

 

 

A Odisseia | The Odyssey
Estados Unidos/Reino Unido, 2026, 173min.
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Elenco: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway
Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas
Direção de Fotografia: Hoyte van Hoytema
Música: Trent Reznor, Ludwig Göransson
Classificação: 16 anos
Distribuição: Universal Pictures

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