Julián (Annecy International Animation Film Festival 2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Crítica | Julián [Annecy International Animation Film Festival 2026]

Ser visto em sua totalidade, sem a exigência de se tornar outra pessoa, talvez seja uma das experiências mais importantes que alguém pode viver.

A mais nova animação do Cartoon Saloon (Wolfwalkers) acaba de ter sua première mundial no Festival de Annecy. O longa em 2D acompanha Julián, um garoto que passa o verão com uma avó que mal conhece, descobre suas raízes caribenhas e, de forma mágica e simbólica, descobre que é diferente dos outros garotos: seu sonho é ser uma sereia no famoso desfile Mermaid Parade (Parada das Sereias), um evento real que acontece todos os anos em Coney Island, no Brooklyn, em Nova York. Ela foi criada em 1983 como uma celebração da criatividade, da autoexpressão e da diversidade. Pessoas de todas as idades participam usando fantasias de sereias, criaturas marinhas, reis dos oceanos e personagens fantásticos. Assim como o Carnaval, a parada representa um espaço de pertencimento onde a imaginação deixa de ser algo privado e passa a ser celebrada coletivamente.

O filme é baseado no livro infantil Julián Is a Mermaid, da escritora e ilustradora Jessica Love. Em uma época em que a infância é frequentemente cercada por expectativas, regras e pressões para se encaixar em determinados comportamentos, a obra propõe um olhar diferente: e se as crianças fossem encorajadas a explorar quem são sem medo de julgamentos? A jornada de Julián não fala apenas sobre fantasia ou sobre o desejo de participar de uma parada de sereias, mas sobre a liberdade de imaginar, experimentar e descobrir a própria identidade. O filme sugere que a imaginação não é uma fuga da realidade, e sim uma ferramenta para compreendê-la. Ao acompanhar um garoto que encontra acolhimento justamente quando decide expressar aquilo que sente, a narrativa convida o espectador a refletir sobre quantas versões de si mesmo deixamos de explorar quando a criatividade e a espontaneidade são substituídas pela necessidade de corresponder às expectativas dos outros.

Julián (Annecy International Animation Film Festival 2026) | Imagem: Cortesia Cartoon Saloon

“Abuela, você me encontrou.”

Julián é uma criança curiosa, que observa a avó, suas roupas, seus adornos e seus costumes com um misto de encantamento e estranhamento. O filme evidencia as diferenças entre gerações e entre contextos culturais distintos, mostrando como crianças que crescem afastadas de suas origens muitas vezes precisam redescobrir aspectos de si mesmas que não lhes foram plenamente transmitidos. Embora a narrativa dialogue com experiências comuns de famílias imigrantes e da diáspora caribenha, ela não está preocupada apenas em preservar tradições. Seu interesse maior está na construção da identidade. Julián habita um espaço entre a infância e o amadurecimento, entre aquilo que os outros esperam dele e aquilo que ele sente ser. Nesse sentido, a cultura aparece não menos como herança e mais como como uma ferramenta para compreender quem somos. Ao entrar em contato com a avó e com um universo de referências que lhe parecia distante, Julián encontra não respostas definitivas, mas a liberdade para imaginar novas possibilidades para si mesmo.

Há uma beleza rara na forma como o protagonista enxerga o mundo. Crianças não se preocupam com categorias, rótulos ou expectativas sociais da mesma maneira que os adultos; elas experimentam, imaginam e transformam o cotidiano em brincadeira. O filme celebra justamente essa liberdade de ser o que se quiser, lembrando que crescer não deveria significar abandonar a criatividade ou a espontaneidade. Muitas vezes, os adultos tentam proteger as crianças ensinando regras, limites e comportamentos adequados, mas acabam esquecendo o valor de deixá-las explorar, se sujar, fazer bagunça e descobrir quem são através da imaginação. A animação sugere que preservar esse espaço de expressão não é um luxo da infância, mas uma necessidade.

Julián (Annecy International Animation Film Festival 2026) | Imagem: Reprodução TMDB

“Eu sei como é ter saudade de casa.”

A relação com a avó retrata justamente o encontro entre uma criança que está descobrindo o mundo e um adulto que já viveu o suficiente para compreender seus riscos. Em muitas relações entre avós e netos, existe uma troca silenciosa em que a criança ajuda o adulto a reencontrar partes de si mesmo que ficaram adormecidas pelo tempo, enquanto o adulto oferece acolhimento e proteção para que ela possa crescer com segurança. É uma via de mão dupla: o adulto protege a criança do presente, e a criança cura o adulto do passado. O filme encontra muita ternura justamente nesse equilíbrio entre cuidado, memória e afeto.

Embora muitos espectadores enxerguem a história principalmente através das discussões sobre gênero, Julián me parece falar sobre algo ainda mais amplo: o direito de uma criança ser criança. Existe uma tendência dos adultos de vigiar, corrigir e limitar aquilo que consideram “demais”: entusiasmo demais, imaginação demais, sensibilidade demais, bagunça demais. Mas o que significa uma criança estar “demais”? A infância é justamente o período da vida em que tudo é vivido com intensidade. As fantasias são gigantes, as emoções são profundas e as descobertas parecem mágicas. Ao tentar enquadrar esse impulso natural em regras rígidas e expectativas constantes, muitas vezes roubamos das crianças a oportunidade de explorar o mundo e a si mesmas. O filme sugere que talvez o papel dos adultos não seja reduzir essa intensidade, mas protegê-la. Afinal, passamos a vida inteira tentando recuperar a liberdade, a criatividade e a autenticidade que tantas vezes nos foram desencorajadas quando éramos crianças.

Julián (Annecy International Animation Film Festival 2026) | Imagem: Reprodução TMDB

A simplicidade da narrativa é justamente uma de suas maiores forças. Sem recorrer a grandes discursos ou explicações excessivas, o filme consegue dialogar tanto com crianças quanto com adultos, oferecendo a cada um uma camada diferente de interpretação. Para os mais novos, é uma história sobre imaginação, pertencimento e afeto. Para os mais velhos, é um convite a refletir sobre quantas vezes deixamos de enxergar quem as crianças realmente são por estarmos ocupados demais tentando moldá-las. Ao final, fica a sensação de que o gesto mais transformador não é ensinar, corrigir ou direcionar, mas enxergar. Ser visto em sua totalidade, sem a exigência de se tornar outra pessoa, talvez seja uma das experiências mais importantes que alguém pode viver. E é justamente nesse reconhecimento, nesse encontro genuíno entre quem somos e quem nos acolhe, que a animação encontra sua emoção mais profunda.

 

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido no Annecy International Animation Film Festival 2026 (Annecy Presents)

 

Julián
Canadá, Dinamarca, Reino Unido, Irlanda, 2026, 85min.
Direção: Louise Bagnall
Roteiro: Juliany Taveras
Elenco: Knyght Darius Jack, Milcania Diaz-Rojas, Zariah Georgia Ellis
Produção: Paul Young, Charlotte de la Gournerie, Thibaut Ruby
Edição: Owen Peters, Richie Cody
Música: La-Nai Gabriel
Classificação: Não Definida

 

 

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