Uma viagem alucinantemente contemplativa e existencialista
Em um filme cujo estilo se assemelha ao de Apichatpong Weerasethakul, a sensação aqui é de estar sempre alguns passos atrás do que acontece na tela, pois Andrei Epure parece mais interessado em construir uma atmosfera do que em organizar uma narrativa facilmente assimilável. É um cinema que exige entrega antes de compreensão.
O cotidiano no longa vai sendo contaminado por algo difícil de definir. A realidade permanece reconhecível, mas existe uma estranheza constante pairando sobre os enquadramentos, os silêncios e os espaços vazios. Como se o filme estivesse sempre sugerindo algo que nunca se materializa completamente. O filme acompanha Maria, uma mulher que descobre o corpo de uma vizinha na entrada do prédio. Com isso, iniciamos uma viagem alucinantemente contemplativa e existencialista junto à protagonista.

Os planos são longos, a montagem evita acelerar o ritmo e a câmera observa seus personagens nos dando a sensação de ocupar os mesmos ambientes que eles. Corredores, apartamentos e natureza ganham uma presença tão importante quanto os próprios personagens. Essa decisão causa uma imersão gigantesca no espectador, e apreciar esse trabalho em uma tela grande de cinema foi de uma beleza incontestável.
O curioso é que o filme também possui um humor muito particular. Um humor seco, estranho, que surge em situações inoportunas. Não são momentos pensados para provocar gargalhadas, mas para reforçar o absurdo de determinadas circunstâncias, em uma combinação entre o banal e o inquietante.

Nu mă lăsa să mor não é um filme para ser resolvido. É um filme para ser atravessado e sentido. Ao final, as perguntas permanecem, mas as imagens também. E, em uma obra tão interessada em sensações quanto em significados, isso parece ser mais importante do que qualquer resposta.
Por mais que a narrativa não seja convencional e os planos sejam estáticos e longos, é impossível se sentir entediado. É difícil acreditar que esse seja o primeiro longa de Andrei Epure, pois ele dirige a obra com uma habilidade difícil de ser ignorada, talvez herdada de seus dois primeiros curtas, ‘Maybe Darkness Will Cover Me‘ e ‘Intercom 15′.

Crítica por Pedro Gomes.
Assistido no 15° Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (Mostra Competitiva Internacional)
Não me Deixe Morrer | Nu mă Lăsa Să Mor
Romênia, Bulgária, França, 2026, 108min.
Direção: Andrei Epure
Roteiro: Andrei Epure, Ana Gheorghe
Elenco: Cosmina Stratan, Elina Löwensohn, Silviu Debu
Produção: Ana Gheorghe
Direção de Fotografia: Laurențiu Răducanu
Música: Nathalie Vidal
Classificação: 16 Anos












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