Reparação (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

Crítica | Reparação [15° Olhar de Cinema]

Um dos retratos mais dolorosos de uma dor universal.

Partindo de uma das maiores dores que o ser humano pode suportar, Marcus Curvelo constrói uma obra profundamente humana sobre aquilo que permanece depois da despedida. Não se trata apenas de lidar com a morte, mas do sofrimento de conviver com a ausência. O documentário retrata Marcus em seu aniversário de 35 anos e sua mãe a procura de um local para despejar as cinzas do pai.

O gesto de levar as cinzas ao mar carrega um simbolismo imediato, mas quando a mãe adoece, a narrativa ganha um peso ainda maior, transformando o que parecia ser um adeus em uma dolorosa reflexão sobre a possibilidade de uma nova perda.

Reparação (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

Um dos aspectos mais interessantes da direção está no uso constante das sobreposições de imagem. Curvelo recorre a esse recurso inúmeras vezes ao longo da obra, transformando-o quase em uma linguagem própria do filme. Mais do que representar a passagem do tempo, essas camadas visuais parecem materializar a convivência entre passado e presente, como se diferentes momentos da vida ocupassem simultaneamente o mesmo espaço.

O efeito produzido por essas imagens vai além da nostalgia. As sobreposições evocam uma sensação bastante específica: a de retornar a um lugar que continua fisicamente intacto, mas que já não guarda aquilo que realmente o tornava especial. É a mesma experiência de visitar uma antiga escola ou qualquer espaço carregado de memória. As paredes permanecem ali, mas as pessoas, as emoções e os momentos que preenchiam aquele ambiente já partiram. O lugar existe, mas o tempo que lhe dava significado não pode ser revisitado.

Reparação (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

O filme reconhece que a memória como uma punição paradoxal. Ela preserva aquilo que amamos, mas também nos lembra constantemente que não é possível voltar. O passado pode ser acessado, mas nunca recuperado. Por isso, a experiência acaba encontrando o espectador em um lugar muito íntimo. Quem já perdeu os pais reconhecerá emoções difíceis de nomear. Quem ainda os tem por perto talvez seja confrontado por um pensamento igualmente doloroso: a consciência de que o tempo está avançando. Existe uma fase da vida em que começamos a enxergar nossos pais envelhecendo e, junto dessa percepção, surge o entendimento inevitável de que algumas despedidas fazem parte da própria condição humana.

Reparação (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

No fim, Reparação é um filme sobre perda, memória e permanência. Ao transformar uma experiência profundamente pessoal em linguagem cinematográfica, Marcus Curvelo cria uma obra capaz de abraçar quem já viveu o luto e de tocar aqueles que ainda convivem com o medo dele. É um trabalho delicado, sensível e universal, que encontra beleza justamente naquilo que todos tentamos evitar: a compreensão de que o tempo passa, as pessoas partem, mas certas presenças continuam habitando os lugares que deixaram para trás.

 

Crítica por Pedro Gomes.

Assistido no 15° Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (Mostra Competitiva Brasileira)

 

Olhe Para Mim
Brasil, 2026, 70min.
Direção: Marcus Curvelo
Roteiro: Marcus Curvelo
Elenco: Sônia Gentil Curvelo, Marcus Curvelo, Joel Curvelo
Produção: Marcus Curvelo
Direção de Fotografia: Marcus Curvelo, Danilo Umbelino
Música: Marcus Curvelo
Classificação: 14 Anos

 

 

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