The Devil Wears Prada 2 - 20th Century Studios (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Crítica | O Diabo Veste Prada 2 (The Devil Wears Prada 2)

Um reencontro nostálgico com uma crise de identidade moderna.

O Diabo Veste Prada 2 é um reencontro icônico que reafirma por que esse elenco estava destinado a se tornar inesquecível desde 2006. Em uma era em que a maioria das sequências tende a ser sem graça ou desnecessária, o filme mostra que, mesmo após 20 anos, ainda existe um motivo para continuarmos esperando por retornos: histórias que nos levam de volta a uma época em que tudo parecia mais simples (ou pelo menos, era o que pensávamos…).

Trazer de volta um filme tão icônico depois de tanto tempo é uma aposta extremamente arriscada. Mesmo com um elenco respeitado, não é fácil viver à sombra de um sucesso tão grande. Ainda assim, O Diabo Veste Prada 2 consegue resgatar essa nostalgia de forma suave e emocionante, como reencontrar amigos que você não vê há anos.

Recentemente, a nostalgia dos anos 2000 voltou com força nas redes sociais. As pessoas relembram um tempo que parecia menos complicado, mais colorido, mais presente e, de certa forma, mais livre. Essa sequência chega no momento perfeito, surfando essa onda de memórias e, ao mesmo tempo, nos lembrando que todos nós estamos, de alguma forma, tentando acompanhar a velocidade das mudanças e das novas tecnologias, mesmo que não falemos muito sobre isso.

The Devil Wears Prada 2 – 20th Century Studios (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

O filme traz uma mensagem poderosa, nos fazendo questionar o quanto estamos perdendo nesse processo de inovação global. Em um mundo movido por reações instantâneas e exposição constante, a Runway representava um espaço onde era possível quebrar regras e inspirar sem ser imediatamente julgada. Hoje, essa liberdade vem acompanhada de consequências impossíveis de ignorar.

É impossível não pensar em como essa transição afeta alguém como Miranda Priestly, que construiu sua carreira em uma época em que autoridade raramente era questionada em público. Agora, uma única palavra “errada” pode transformar alguém em vilão da vida real da noite para o dia, e nem mesmo um nome como Miranda Priestly é suficiente para escapar do julgamento da internet. Em uma geração que luta por direitos e responsabilidade , o que é extremamente importante, o filme também nos faz perceber que algo se perdeu no meio desse caminho.

A moda sempre foi uma forma de expressão criativa, um objeto de desejo para tantas pessoas. Como mulher de 29 anos, eu sei o quanto eu esperava pelas novas edições da Capricho ou da TodaTeen para descobrir tendências, ver o que meus artistas favoritos estavam usando e encontrar formas de me expressar através do estilo. As revistas não eram apenas sobre roupas; eram sobre identidade, inspiração e conexão. Elas moldavam a forma como enxergávamos o mundo e a nós mesmos.

The Devil Wears Prada 2 – 20th Century Studios (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

A transição desse universo para a indústria da moda atual é retratada de forma marcante no filme. O que antes era sobre criatividade e acessibilidade passou a girar cada vez mais em torno de exclusividade e status. Vivemos em uma realidade onde muitas pessoas se endividam para manter uma imagem: comprando itens caros que mal podem pagar, muitas vezes apenas para parecerem relevantes online. A pressão por sempre apresentar algo novo transformou a repetição em algo quase inaceitável, até mesmo em situações simples como repetir um look.

As revistas, que antes eram a principal fonte de inspiração, perderam espaço para as redes sociais. Afinal, por que esperar por uma publicação mensal quando tudo está disponível instantaneamente? Como consequência, muitas publicações passaram a priorizar conteúdos rápidos e descartáveis, focando mais em visibilidade do que em profundidade.

Tendo trabalhado com marcas de alta moda por quase 10 anos, eu presenciei essa transformação de perto. Vi profissionais extremamente experientes enfrentarem dificuldades para se adaptar a um mundo totalmente digital, onde tudo é imediato, intangível e está em constante mudança. Muito do toque humano, como a personalidade, a intenção, o cuidado,  foi substituído pela automação e pela velocidade.

The Devil Wears Prada 2 – 20th Century Studios (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

Essa realidade também se reflete nos personagens. Miranda Priestly continua tão poderosa quanto sempre, e é incrível ver Meryl Streep dar vida a ela com tanta precisão mais uma vez. Desta vez, porém, Miranda não é intocável. Ela precisa navegar em um mundo que desafia tudo o que construiu, enquanto se recusa a se curvar ou pedir desculpas por sua ambição. O filme também nos permite enxergar sua vulnerabilidade e o preço de sustentar esse nível de poder.

Anne Hathaway retorna como Andy Sachs, agora mais madura e consciente. Ela traz uma força silenciosa que contrasta perfeitamente com a intensidade de Miranda. Andy representa equilíbrio, alguém que questiona sem confrontar de forma agressiva, que entende o sistema sem se perder nele. Através dela, somos lembrados de que fazer o certo e permanecer fiel a si mesma ainda tem valor. Stanley Tucci, como Nigel, continua sendo um dos elementos mais emocionantes do filme. Sua lealdade a Miranda e sua paixão pelo trabalho são profundamente tocantes, especialmente quando vemos os sacrifícios pessoais por trás dessa dedicação.

Emily Blunt retorna como Emily Charlton com a mesma energia afiada de sempre. Sua personagem traz leveza e humor, mas também representa a insegurança e a ambição presentes em ambientes altamente competitivos. Ela incorpora perfeitamente aquela colega que faria qualquer coisa para subir, mesmo que isso tenha um preço.

The Devil Wears Prada 2 – 20th Century Studios (2026) | Imagem: Reprodução TMDB

O filme também entrega no visual, com trilha sonora marcante, novas músicas com potencial viral, figurinos incríveis e participações memoráveis, incluindo a belíssima Simone Ashley, que se destaca com looks impressionantes como assistente de Miranda.

No fim, O Diabo Veste Prada 2 vai além de uma simples sequência nostálgica. É uma reflexão sobre mudança, identidade e o custo de se manter relevante em um mundo que não desacelera. O filme nos lembra que, embora a evolução seja inevitável, a essência da arte, da criatividade e da conexão humana jamais deveria ser sacrificada.

E, acima de tudo, reforça uma mensagem poderosa: nenhuma mulher deve ser diminuída por ser “demais”, exigente ou considerada “velha demais”. O mundo pode tentar mudar esses traços, mas eles se mantém como fonte de poder. E assim como Miranda Priestly, algumas forças não se apagam: elas se adaptam.

 

Crítica por Lorrayne Gabrielle.

 

O Diabo Veste Prada 2 | The Devil Wears Prada 2
Estados Unidos, 2026, 119min.
Direção: David Frankel
Roteiro: Aline Brosh McKenna
Elenco: Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt
Produção: Wendy Finerman
Direção de Fotografia: Florian Ballhaus
Música: Theodore Shapiro, Lady Gaga, Doechii
Classificação: 12 Anos
Distribuição: The Walt Disney Company (20th Century Studios)

 

Não perca nenhum conteúdo! Siga o Vi nos Filmes no Instagram, Youtube e Tiktok