Um retrato singular das relações familiares e da indústria televisiva.
A Vilã das Nove é um filme comercial que se desvia dos padrões convencionais, oferecendo um retrato tocante e diferenciado dos conflitos familiares, um tema amplamente explorado no cinema nacional.
Débora, uma filha cheia de rancor, viveu uma infância problemática na presença de sua mãe. Agora, mais velha, embarca em uma jornada de perdão e reconciliação com seu passado. Ela compartilha seus dramas com um autor de novela famoso, que decide transformar sua vida em uma trama televisiva. Essa abordagem, no entanto, já é familiar: um retrato da vida de sua mãe no horário nobre da TV brasileira, o que lembra muito o episódio “A Joan é Péssima”, da sexta temporada de “Black Mirror”, onde roubam a vida da personagem fazendo uma série da mesma e revelando todos os seus maiores podres.

A história, transformada em uma novela, explora não apenas os bastidores da produção e os atores que interpretam os personagens reais, mas também as situações burocráticas e os jogos midiáticos envolvidos em tudo isso. A mãe, agora retratada como a emblemática Vilã das Nove, é uma personagem multifacetada, cujas manipulações e táticas passivo-agressivas desenrolam um enredo cheio de nuances. Seu controle sobre as situações arquitetam um jogo psicológico profundo, fazendo o público questionar até onde ela está disposta a ir para proteger seus segredos. Ainda falando do elenco, sua seleção foi a cereja do bolo para o projeto me agradar tanto, desde a atriz mirim até as protagonistas Karine Teles e Alice Wegmann, que ditam o ritmo de toda a trama só com suas personalidades marcantes e de exemplar desempenho.
Ainda, o filme traz um humor sutil, repleto de representações corriqueiras e elementos linguísticos típicos da cultura brasileira, trazendo a leveza característica de produções nacionais, como os lançamentos da produtora Filmes de Plástico. Essa atmosfera, no entanto, se diferencia pelo contexto dos sets de gravação e da indústria televisiva no Rio de Janeiro, que adicionam um toque único ao humor desenvolvido. A infância da outra filha retratada também desempenha um papel crucial nesse tom cômico, equilibrando as cenas mais dramáticas com sua inocência e carisma. A dinâmica entre ela e sua mãe, a emblemática Vilã das Nove, é essencial não apenas para fortalecer a conexão emocional da trama, mas também para dar ritmo ao humor, especialmente nas intrigas e revelações que pontuam a narrativa.

Toda essa abordagem diferente subverte as expectativas do cinema comercial de streaming, evitando os clichês de arrependimento típicos das novelas (exemplo de autocrítica em um humor refinadíssimo). Em vez disso, aposta em ações simples que capturam com profundidade os sentimentos dos personagens. O desfecho é envolvente e natural, amplificado pela trilha sonora, o silêncio dramático no lugar de diálogos vagos e as cores cuidadosamente distribuídas, que trazem a densidade necessária para a proposta.
Crítica por Guilherme Norvilas.
Filme assistido na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo – São Paulo Int’l Film Festival (2024)

A Vilã das Nove
Brasil, 2024, 104 min.
Direção: Teodoro Poppovic
Roteiro: Teodoro Poppovic, Maíra Bühler, Gabriela Capello, ndré Pereira
Elenco: Karine Teles, Alice Wegmann, Antônio Pitanga
Produção: ndré Pereira, Mariana Muniz
Direção de Fotografia: Wilssa Esser
Música: Jonas Sá, Pedro Mibielli
Classificação: 16 anos
Distribuição: Star Distribution










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