Tangles - Annecy Film Festival | Imagem: Reprodução TMDB

Entre a memória e o amor: Leah Nelson fala sobre o processo criativo de Tangles no Festival de Annecy

Durante o Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy 2026, o crítico de cinema Pedro Gomes, da Vi nos Filmes, conversou com a diretora Leah Nelson sobre Tangles, longa de animação baseado na graphic novel autobiográfica de Sarah Leavitt. O filme acompanha Sarah enquanto enfrenta o avanço do Alzheimer de sua mãe, Midge, utilizando uma estética em preto e branco para retratar memórias, perdas e a experiência de quem cuida de um familiar com demência. Na entrevista, Leah falou sobre a adaptação da obra, as escolhas visuais do filme e a importância de abordar o tema de forma sensível.

Tangles – Annecy Film Festival | Imagem: Reprodução TMDB

Pedro Gomes: Eu simplesmente adorei. Gostaria de saber: o que havia na graphic novel original que fez você sentir que ela merecia se tornar um filme de animação?

Leah Nelson: Quando li a graphic novel pela primeira vez, havia um caso de demência na minha família. Na verdade, eu estava bastante nervosa para começar a leitura, porque parecia que, a cada página que eu virava, descobriria o que estava por vir. Eu estava completamente envolvida emocionalmente. Mas me obriguei a terminar o livro. E foi uma experiência extremamente catártica, emocionante e curativa. Eu chorei muito durante a leitura, mas também ri. E senti como se o livro me desse permissão para rir.

Consegui me identificar com tantas coisas. Para mim, era uma verdadeira carta de amor às famílias e aos cuidadores, além de retratar jovens que precisam enfrentar situações muito difíceis dentro de casa. Eu me apaixonei pela graphic novel e soube imediatamente que era uma história importante, capaz de tocar muitas pessoas. Mesmo que alguém nunca tenha convivido com a demência, perder um dos pais é algo profundamente marcante. Ter uma doença grave dentro da família também é algo infelizmente muito comum.

Além disso, a obra era estranha, bonita, peculiar e extremamente honesta. Eu amava as ilustrações e simplesmente senti que aquela história precisava se tornar um filme. Eu apenas sabia.


Pedro Gomes: O filme abraça essa estética em preto e branco em vez da tradicional paleta colorida. O que levou você a tomar essa decisão e como sentiu que ela serviria emocionalmente à história?

Leah Nelson: Essa é uma ótima pergunta. Eu sempre quis manter o preto e branco. Achava que ele era belíssimo na graphic novel. Nunca senti falta de cores. Quando comecei a adaptar a história, jamais imaginei o filme colorido. Para mim, ele sempre existiu em preto e branco. Eu adoro o preto e branco. Acho que ele é bonito e completo por si só.

Claro, temos pequenos momentos de cor. Desde o início sabíamos que queríamos experimentar isso na direção de arte, mas fizemos muitos testes para descobrir exatamente onde a cor poderia acrescentar algo à imagem, sem se tornar uma distração. Ela aparece apenas quando as emoções dos personagens transbordam. Além disso, há algo muito forte no preto e branco. Ele faz com que você concentre sua atenção na história. Você consegue mergulhar mais profundamente porque não está sendo distraído visualmente.

Também me pareceu a forma mais autêntica de contar essa história, que é dura, corajosa e muito honesta. Tentamos capturar no filme a mesma sinceridade que Sarah colocou em seu livro, mostrando a realidade de conviver com o Alzheimer dentro da família. Queríamos mostrar tanto os momentos mais difíceis e sombrios quanto aqueles em que ainda existe luz. E o preto e branco parecia a paleta perfeita para isso.

Não me arrependo da escolha. Para mim, era a única maneira possível de apresentar essa história.


Pedro Gomes: Eu concordo totalmente. O filme retrata uma doença que apaga as memórias. Como diretora, qual foi o maior desafio para fazer o público sentir essa perda sem precisar explicá-la o tempo todo?

Leah Nelson: Essa é uma pergunta interessante.

Todo o filme é contado a partir da perspectiva da Sarah, da filha. São as memórias dela. Nós nunca entramos na mente da Midge, a personagem que vive com Alzheimer, porque simplesmente não sabemos o que acontece dentro dela. Eu nunca quis inventar essa resposta. As lembranças da Sarah também são confusas e nebulosas. As memórias da infância costumam ser assim. Às vezes você lembra apenas de pequenas texturas, fragmentos ou momentos que ficaram gravados na sua mente. Foi isso que tentamos mostrar. Logo no começo do filme há uma frase da própria Sarah dizendo: “Foi assim que eu me lembrei disso”. Essa frase se tornou a nossa estrela-guia.

Se Sarah lembrava de determinado acontecimento daquela maneira, era assim que nós o retratávamos visualmente. Quanto à sensação de perda, ela é vivida através da percepção da Sarah ao longo do tempo. Por isso tomamos muito cuidado ao mostrar as mudanças da Midge durante o filme. Cada vez que Sarah a reencontra — seja na vida real, em uma lembrança ou em algum sonho perturbador — ela está diferente. Ela continua mudando.

Foi assim que escolhemos representar essa perda: através da perda da Sarah. Também fizemos questão de apresentar bem a Midge ao público para que as pessoas também sentissem tristeza ao vê-la desaparecer aos poucos.

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Pedro Gomes: E, falando sobre perda, a Sarah precisa lidar com a perda da mãe antes mesmo de ela partir. Você acredita que esse tipo de luto antecipado ainda é pouco retratado no cinema?

Leah Nelson: Sinceramente, não sei dizer se é pouco retratado. Mas era muito importante para nós mostrar isso no nosso filme. A verdade é que cada caso de Alzheimer é diferente. A experiência de cada família também é completamente diferente. No meu caso, por já ter passado por isso, uma das coisas com as quais mais me identifiquei foi justamente essa sensação de viver o luto enquanto a pessoa ainda está ali. Espero que essa ideia esteja naturalmente presente na história e que o público consiga senti-la através da experiência da Sarah, sem que precisemos explicá-la o tempo todo.

Há uma cena em que a Midge está na cozinha tentando fazer sopa. Ela começa a colocar facas dentro da panela porque está confusa e tenta se lembrar da receita que sempre preparava. Quando cortamos para a Sarah, eu queria que o público visse o coração dela afundar naquele instante. Nossos personagens têm apenas pequenos olhos em forma de ponto, então transmitir toda essa emoção foi um enorme desafio. Mas nossos animadores e designers de personagens fizeram um trabalho extraordinário.

Eu dizia a eles: “Quero apenas ver o coração dela afundar naquele momento.” Ela não diz absolutamente nada. Para mim, essa é a representação visual do luto que sentimos enquanto a pessoa ainda está viva. Foi assim que escolhemos retratar esse sentimento: através de momentos muito delicados como esse. E acredito que, quando alguém já viveu uma situação parecida, aquela cena toca muito profundamente.

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Pedro Gomes: A graphic novel já era extremamente íntima e pessoal. Em que momento você percebeu que havia algo que somente a animação conseguiria expressar, algo que talvez um filme em live-action não fosse capaz?

Leah Nelson: Gostei dessa pergunta.

Já me fizeram algumas versões dela, porque, de certa forma, minha resposta sempre é: por que não fazer em animação? Eu sempre escolheria a animação para contar essa história. É claro que essa narrativa poderia existir em outras mídias, mas estamos falando da história de uma artista que desenha para colocar suas emoções para fora e compreender aquilo que está vivendo. Quando ela está sofrendo, isso aparece nos desenhos. Quando ela está feliz, isso também aparece.

Para quem é artista, essa conexão acontece naturalmente. Por isso era essencial para mim usar a animação. Ela me permitia entrar na psique da Sarah, dentro da mente dela. Quando visitamos o mundo interior da personagem, tudo é desenhado porque é assim que ela enxerga a própria realidade. A animação nos dava uma liberdade praticamente ilimitada.

Podíamos encontrar um equilíbrio entre o mundo real e um espaço mais surreal. Às vezes os dois coexistem ao mesmo tempo, e eu nunca quis estabelecer regras rígidas separando essas duas dimensões. Na verdade, acho que isso também acontece na vida. Quando estamos passando por algo muito pesado, tudo pode parecer surreal. Nós costumamos descrever emoções usando imagens.

Dizemos: “Parecia que eu estava me afogando.”

“Parecia que eu não conseguia respirar.”

“Parecia que eu estava flutuando.”

“Parecia que tudo estava escuro.”

Todas essas são formas de explicar sentimentos. E a animação permite transformar essas sensações em imagens. Para mim, ela era absolutamente a melhor maneira de contar essa história.


Pedro Gomes: Eu não conseguiria descrever isso melhor. Que tipo de conversa você espera que o filme desperte entre as famílias depois que elas saírem do cinema?

Leah Nelson: Essa é uma pergunta muito bonita. E acho que isso já está acontecendo. Ouvimos muitas pessoas dizendo que a primeira coisa que fizeram depois de assistir ao filme foi ligar para a própria mãe. Eu adoro ouvir isso. Acho que essa é a melhor resposta que poderíamos receber. Também ouvimos relatos de pessoas dizendo que passaram a ter muito mais empatia pelos familiares que cuidam de alguém doente. Acho isso muito bonito, porque o filme oferece uma perspectiva sobre como esse papel é difícil.

Tanto o Rob quanto a Sarah são cuidadores, e muitas pessoas disseram que essa parte da história as marcou profundamente. Fico muito feliz quando alguém diz que passou a valorizar mais tudo aquilo que um familiar cuidador enfrenta. Também ouvimos muitos relatos de pessoas dizendo que choraram muito durante a sessão, mas que aquilo lhes fez bem. Tenho ouvido que estamos partindo muitos corações nas salas de cinema, e realmente há muitas lágrimas. Mas também há risadas. Existem momentos leves e divertidos no filme, e acho importante que as pessoas possam rir também. Quando um filme consegue fazer você rir e chorar ao mesmo tempo, ele pode proporcionar uma experiência muito catártica. Você sai da sessão com a sensação de que viveu alguma coisa.

Em muitos aspectos, acredito que Tangles seja uma verdadeira carta de amor aos cuidadores. Mais do que qualquer outra coisa, espero que as famílias saiam do cinema querendo ficar juntas, compreendendo melhor como tudo isso é difícil e valorizando umas às outras.

 

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