Os Irmãos Segreto - 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto | Imagem: Cortesia CineOP

Crítica | Os Irmãos Segreto [21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto]

Os Irmãos Segreto e a importância da preservação.

Não podemos falar sobre os primórdios do cinema brasileiro sem falar de sua preservação – ou a falta dela, neste caso. O documentário “Os Irmãos Segreto”, de Michele Manzolini e Federico Ferrone, exibido na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto e na 8 ½ Festa do Cinema Italiano, apresenta a história dos pioneiros do cinema no Brasil e levanta a questão da importância de preservar nossa produção audiovisual e, consequentemente, a nossa história.

O documentário, uma coprodução entre Brasil e Itália, conta de forma fabular a história de Paschoal, Gaetano e Alfonso Segreto, irmãos italianos que trouxeram o cinema para o Brasil no final do século XIX e início do século XX, desenvolvendo filmagens e realizando exibições no Rio de Janeiro. O documentário não segue a estrutura “comum” do gênero. A narração de Paulo Betti dá a sensação de a história é contada por alguém que viveu na época dos Segreto e ouviu histórias sobre eles. Ele pede licença ao público para usar a imaginação em certos momentos. Em entrevista ao site Papo de Cinema, os diretores contaram que o filme foi pensado como uma “lenda”, devido à escassez de informações.

Não existem muitas informações sobre os irmãos Segreto. (…) Existem fatos comprovados, documentos e acontecimentos que conhecemos e que estão presentes no filme. Mas também existem muitas coisas que provavelmente nunca teremos condições de saber.” – Federico Ferrone

Os Irmãos Segreto – 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto | Imagem: Reprodução TMDB

Das cem filmagens realizadas por Alfonso Segreto (o cineasta dentre os irmãos), apenas uma sobreviveu ao tempo – a filmagem de um batalhão do exército partindo para o Paraná, presente no documentário. Diante da perda praticamente total dos filmes, são utilizadas imagens de arquivo de outros realizadores como recurso narrativo para ambientar o espectador na época dos acontecimentos narrados. Não se sabe quando e onde Alfonso morreu. Existem divergências sobre sua filmagem em 19 de junho de 1898 da Baía de Guanabara, feita do navio que chegava ao Brasil, ser a primeira filmagem em nosso país – alguns estudiosos afirmam que houve filmagens em Petrópolis em 1897. O Dia do Cinema Brasileiro é celebrado diante de um mistério.

Nos primeiros anos do cinema, não havia um cuidado com a preservação nem perto do que vemos hoje. As películas se deterioravam rapidamente, eram de material inflamável, o que facilitava sua perda definitiva. O cinema demorou a ser visto como arte, logo, demorou a ser devidamente valorizado. Perdemos milhares de registros não apenas artísticos, mas históricos do nosso país e do mundo todo.

Os Irmãos Segreto – 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto | Imagem: Reprodução TMDB

Com as imagens de arquivo, o filme faz paralelos entre o Rio de Janeiro do final do século XIX e início do século XX com o Rio de Janeiro atual. Há um certo misticismo na narrativa, cruzando o tempo e os elementos cariocas que atravessaram o último século (as ruas, os bondes, as antigas salas de cinema). “Não queríamos fazer um filme objetivo. É, acima de tudo, um ato de amor pela cidade, pela memória e pela relação histórica entre Brasil e Itália”, diz Ferrone. O que foi documentado, então? A imprecisão dos fatos torna a história dos Segreto inenarrável?

Informações incertas ou inexistentes, filmagens que não existem mais. Mesmo diante deste cenário, Michele Manzolini e Federico Ferrone tentam restaurar os pioneiros do nosso cinema, o que também é um trabalho de preservação. Tão importantes, os irmãos Segreto são como fantasmas na nossa história.

 

Crítica por Maria Luiza Guidugli.

Filme assistido na 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto.

 

Os Irmãos Segreto
Brasil, 2026, 78min.
Direção: Michele Manzolini e Federico Ferrone
Roteiro: Michele Manzolini e Federico Ferrone
Produção: Juliana Carvalho, Paolo Carpignano, Jon Coplon,
Direção de Fotografia: Luis Abramo, Andrea Vaccari

Distribuição: Bang Filmes

Não perca nenhum conteúdo! Siga o Vi nos Filmes no Instagram, Youtube e Tiktok