Crítica | Se Pombos Virassem Ouro (If Pigeons Turned to Gold) [15° Olhar de Cinema]

Você já sofreu por alguém que ainda não morreu?

Muita gente vai olhar para If Pigeons Turned to Gold e imaginar um filme sobre alcoolismo, abandono e traumas familiares. Pepa Lubojacki sabe exatamente como construir essa narrativa, e em todas as opções, ela escolhe falar de amor. E isso muda completamente a forma de abordar a obra.

O que torna o documentário tão extraordinário não é a exposição da dependência química, mas a recusa em transformar o dependente em um problema a ser resolvido. Pepa Lubojacki filma o irmão não como um caso social, um alerta ou uma tragédia anunciada. Ela o filma como alguém digno de amor, mesmo quando tudo ao redor parece ter desistido dele. Os registros são construídos com uma empatia rara de se ver quando o assunto é o álcool, a droga mais socialmente aceita na história da humanidade.

Se Pombos Virassem Ouro (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

O cinema costuma retratar o vício a partir da destruição: relações rompidas, recaídas, violência. Tudo isso está presente aqui, mas a câmera nunca se aproxima com julgamento. O filme frequentemente questiona se já sofremos por alguém que ainda não morrer, e traz esse questionamento para o fundo da alma, de uma maneira brutalmente honesta e intimista.

E talvez seja justamente por isso que a obra ressoe tão fortemente em diferentes países. O vício é universal, mas o amor também é.

Se Pombos Virassem Ouro (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

O olhar de Lubojacki possui uma ternura que beira o impossível. Em nenhum momento ela romantiza a dependência química, mas também não permite que ela se torne a definição completa de uma pessoa. Seu irmão é mostrado em toda a sua complexidade: vulnerável, contraditório, divertido, afetuoso, humano.

É um filme que entende que a empatia não nasce quando admiramos alguém em seus melhores momentos. Ela nasce quando escolhemos permanecer ao lado dessa pessoa em seus piores. E talvez a maior conquista de If Pigeons Turned to Gold seja justamente essa: transformar um tema frequentemente tratado através da culpa e da condenação em uma experiência de acolhimento. Não porque o cinema possa curar o vício, mas porque ele pode fazer algo igualmente importante: lembrar que ninguém deveria enfrentar sua dor sozinho.

Se Pombos Virassem Ouro (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

Ao longo do documentário, Pepa Lubojacki retorna repetidamente à imagem dos pombos. São criaturas que dividem as ruas conosco todos os dias, mas que raramente recebem um olhar atento. Estão presentes, mas permanecem invisíveis. A diretora então propõe uma reflexão simples: e se esses pombos fossem feitos de ouro? Provavelmente todos parariam para observá-los. O valor não estaria naquilo que eles são, mas na forma como passamos a enxergá-los. A metáfora encontra seu destino nos dependentes químicos retratados pelo filme. Assim como os pombos, eles se tornaram figuras que a sociedade aprendeu a ignorar.

E o trabalho em vídeo aqui nos convida a desafiar essa invisibilidade. Lubojacki olha para aqueles que costumam ser reduzidos ao próprio vício e devolve a eles sua humanidade. Seu irmão não é apenas um alcoólatra. Ele é alguém capaz de amar, de fazer rir, de criar memórias, de demonstrar afeto e de carregar uma história que existe muito antes da dependência. O filme nos ensina a enxergar o ouro que já existe nessas pessoas, ainda que ele esteja escondido sob camadas de dor, abandono e preconceito.

Se Pombos Virassem Ouro (15° Olhar de Cinema) | Imagem: Divulgação

 

Em suma, o documentário fala, acima de tudo, sobre amor. Quantas pessoas extraordinárias será que deixamos de enxergar simplesmente porque nos acostumamos a desviar o olhar?

Não perca nenhum conteúdo! Siga o Vi nos Filmes no Instagram, Youtube e Tiktok