Um ousado terror biológico toma conta da primeira noite do 15° Olhar de Cinema
O cinema brasileiro raramente se aventura pela ficção científica (ou de um terror biológico) de maneira tão ambiciosa quanto em Yellow Cake. Dirigido por Tiago Melo, o filme parte da preocupação em combater o mosquito da dengue para construir uma narrativa que mistura suspense, crítica social e horror. A trama acompanha uma cientista envolvida em um projeto experimental que promete resolver a crise da dengue utilizando urânio para esterilizar os mosquitos, mas que acaba desencadeando consequências cada vez mais preocupantes. O resultado é uma obra que encontra originalidade justamente ao transformar algo cotidiano em fonte de medo.
O aspecto mais interessante do filme é a sua coragem de abraçar o terror ambiental e radioativo. Em vez de recorrer a monstros ou ameaças sobrenaturais, Yellow Cake encontra horror em questões reais que fazem parte do nosso presente. A dengue já é uma preocupação constante no Brasil, e o filme aproveita esse sentimento coletivo para criar uma atmosfera de tensão que se torna ainda mais eficaz por parecer próxima da realidade. Quanto mais a história avança, mais percebemos que o verdadeiro medo nasce das decisões humanas e de suas consequências.

Outro tema interessante trabalhado pelo filme é a obsessão humana pelo controle. A tentativa de eliminar um problema real através de uma solução aparentemente definitiva acaba se transformando em uma demonstração de arrogância científica. Ao utilizar a radiação como ferramenta para erradicar o mosquito da dengue, os personagens acreditam ser capazes de dominar completamente a natureza e prever todas as consequências de suas ações. No entanto, Yellow Cake sugere justamente o contrário: existem forças e equilíbrios que escapam ao controle humano, e a crença de que a ciência pode oferecer respostas absolutas pode se tornar tão perigosa quanto o problema que se pretende resolver.
E é justamente essa discussão que ganha ainda mais força quando colocada em contraste com a personagem de Tânia Maria. Enquanto cientistas, autoridades e especialistas buscam controlar cada aspecto da situação, ela enxerga o mundo com simplicidade e aceitação. O contraste entre essas visões cria uma das reflexões mais interessantes do filme: de um lado, a humanidade tentando se colocar acima de tudo e de todos; do outro, uma personagem que compreende que nem tudo precisa ser dominado para existir. Sem romantizar os riscos envolvidos, Tiago Melo parece questionar até que ponto nossa necessidade de controle não é justamente aquilo que desencadeia os maiores desastres.

A direção de Tiago demonstra segurança ao conduzir uma narrativa que transita entre diferentes gêneros sem perder sua identidade. Ao mesmo tempo, a fotografia contribui de forma decisiva para o clima de estranheza e inquietação, criando imagens que alternam entre a beleza das paisagens e a sensação constante de que algo está prestes a dar errado. É um filme visualmente marcante, que entende a importância da linguagem cinematográfica na construção do suspense.
Rejane Faria entrega uma atuação de enorme força dramática. Sua personagem carrega a responsabilidade de compreender o problema que se desenvolve diante de todos, mas também precisa lidar com a resistência daqueles que se recusam a escutá-la. A atriz transmite inteligência, frustração e determinação de forma natural, tornando sua cientista uma figura extremamente crível e fácil de acompanhar ao longo da história. Talvez a camada mais interessante da personagem esteja justamente na forma como ela é tratada pelos colegas. Apesar de sua competência e conhecimento, ela é constantemente ignorada, desacreditada e deixada em segundo plano. Sem precisar transformar esse debate em discurso explícito, Yellow Cake evidencia como o preconceito e a hierarquia podem impedir que vozes importantes sejam ouvidas.

Tendo grande abertura no Olhar de Cinema, o filme se consolida como uma obra ousada, atual e surpreendentemente singular dentro do cinema brasileiro recente.
Crítica por Pedro Gomes.
Assistido no 15° Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (Filme de Abertura)
Yellow Cake
Brasil, 2026, 97min.
Direção: Tiago Melo
Roteiro: Celina Ximenes, Larissa Estevam
Elenco: Rejane Faria, Tânia Maria, Valmir do Côco
Produção: Carol Ferreira, Tiago Melo, Leonardo Sette
Direção de Fotografia: Ivo Lopes Araújo, Gustavo Pessoa
Música: O Grivo
Classificação: Não Definida
Distribuição: Olhar Filmes












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