Pedro Gomes e Karine Teles - Mostra de Cinema de Tiradentes (2026)

Cinema, memória e responsabilidade: Karine Teles fala sobre redes sociais e criação na Mostra de Cinema de Tiradentes (Íntegra)

Homenageada da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Karine Teles reflete sobre a própria trajetória no cinema brasileiro e a importância de ter seu conjunto de obras celebrado em um espaço dedicado ao debate, à diversidade de linguagens e à formação de público. Para a atriz, diretora e roteirista, a relação com Tiradentes passa também pela memória pessoal, artística e coletiva, que atravessa sua carreira e encontra ressonância no espírito do festival.

Na entrevista, Karine fala sobre os temas humanos que ainda deseja explorar no cinema, comenta os impactos do consumo acelerado de conteúdos nas redes sociais e defende a necessidade urgente de regulamentação do ambiente digital, especialmente no que diz respeito à proteção de crianças e adolescentes. A conversa atravessa sua experiência como artista e como mãe, apontando o cinema como ferramenta de escuta, reflexão e responsabilidade social em um momento de saturação informacional.

A seguir, você confere a entrevista completa.

#SalveRosa – Mostra de Cinema de Tiradentes (2026)

Pedro Gomes:
Como você sente por ter o seu conjunto de obras, a sua história, sua carreira sendo homenageada nessa edição?

Karine Teles:
Olha, eu estou muito honrada e muito agradecida, porque eu acho que a Mostra de Tiradentes é um lugar importante de discussão, de linguagem, de debates, de troca de ideias, de ter um público muito jovem há muito tempo, que tem gente que frequenta há muitos anos, que tem há 20 anos assim. Eu acho que essa pluralidade, essa diversidade me interessa muito e quando tem o meu trabalho homenageado dentro de uma mostra que tem esse cinema desse jeito, muito me honra e me deixa muito feliz também, porque eu me sinto em casa.

Pedro Gomes:
A sua trajetória no cinema evoluiu bastante e os seus filmes estão muito especiais, desde os primeiros até os últimos, desde quando você trabalha como atriz, até como diretora e como escritora. Qual o tema ou situações humanas que você ainda sente vontade de abordar no cinema?

Karine Teles:
Ixe, muita coisa ainda. Eu acho que a gente, como ser humano, assim, a gente precisa sempre conversar, um precisa do outro, né? A gente precisa se conectar com outras pessoas e reconhecer e eu acho que o cinema é uma ferramenta muito poderosa nesse sentido, assim, né? Então acho que tem muita coisa que a gente precisa discutir ainda. Eu tenho um roteiro escrito que eu vou dirigir, que… é um assunto que está me mobilizando nesse momento, mas tem muita coisa que como mulher eu quero discutir, tem muita coisa que como cidadã eu quero discutir. Acho que assunto não vai faltar, não.

Pedro Gomes:
Como que você vê o impacto das redes sociais nessa geração atual para consumir e compreender o cinema?

Karine Teles:
Olha, eu acho que as redes sociais surgiram como uma coisa muito interessante e poderosa, né? Que era uma ferramenta de conexão que foi muito interessante, mas eu acho que agora a gente está num momento que isso está saturando um pouco. Então eu acho que as pessoas que não tiveram um excesso de estímulos fritos até hoje, espero que consigam recobrar uma capacidade de atenção mais ampla novamente. Eu vejo por mim, eu acho que a gente quando fica consumindo muita informação curta, coisas rápidas e prazerosas, a gente vai perdendo a capacidade de experimentar outros tempos, outras velocidades e isso não é legal. Então eu espero que quem já está com certo frito consiga se recuperar. E eu acho que a gente está já começando a entrar no declínio desse frisson todo. Acho que as pessoas estão entendendo que essa ferramenta tem que ser utilizada de maneiras específicas e não como a fonte principal de informação e de troca humana, né? A gente precisa segurar um ano um pouquinho assim. Eu acho que é o movimento natural, espero que seja isso.

Pedro Gomes:
De todos os seus personagens, sejam os que você criou ou os que você interpretou, qual que você acha que passa uma mensagem mais importante agora para você compartilhar com a gente?

Karine Teles:
Bom, eu acho que o #SalveRosa, que é um filme mais atual que eu fiz, né? Assim que eu filmei por último dos que estão disponíveis, faz justamente uma discussão do que que a gente consome na internet e o que que pode estar por trás do que a gente está consumindo, que a gente não pensa, né? E discute a necessidade de uma regulamentação, de uma legislação específica para as redes sociais, principalmente no que diz respeito a crianças e adolescentes. Acho que vidas podem ser destruídas, como sabemos que foram e estão sendo. E acho que a gente precisa regular. Uma criança ou um adolescente que vai trabalhar em qualquer produto audiovisual hoje em dia está submetido a um monte de regras. Tem que estar na escola, tem que ter um acompanhamento, tem que ser saudável, não pode estar em contato com alguns temas. Na internet não tem nenhuma regulação de nada, de nada. Então acho que isso é urgente e extremamente necessário. É isso, é isso.

Pedro Gomes:
A internet é um lugar muito perigoso para criança sem regulamentação. Você acha que isso vem de um dever do Estado de regulamentar ou dos pais de monitorar? Ou dos dois?

Karine Teles:
Eu acho que é dos dois. Eu acho que a gente precisa das leis para poder ter base, né? De quais são os limites assim e até para a gente poder responsabilizar as pessoas no caso de danos, de abusos, crimes que possam ser cometidos nesse sentido, a gente precisa das leis para amparar. E eu acho que é uma discussão que os pais precisam participar e ouvir tanto os pais que têm que estar atentos ao que seus filhos consomem na internet quanto os pais que acabam usando os filhos como criadores de conteúdo, como forma de ganhar dinheiro, né? Tem que pensar e tem que discutir e tem que olhar para isso e avaliar quais os possíveis danos que isso pode gerar na vida dos seus filhos. Enfim, acho uma discussão bem profunda e bem importante. Acho que é uma combinação das duas coisas. Eu, por exemplo, sou mãe de adolescente, já cuidava de controlar o que os meus filhos consumiam e o tempo que eles ficavam na internet. Mas quando o celular foi proibido na escola, para mim foi maravilhoso, porque aí eu tenho um apoio de fora que diz “ó, tá vendo? Tá proibido”. Então assim, não tem discussão. Não sou eu que sou a má que proíbe de você usar o telefone. Ficou provado que é um problema e por isso tá proibido. Então eu acho que é uma combinação das duas coisas.

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