Um retrato caseiro e político de uma família ao longo das décadas
Meu Tio da Câmera se constrói a partir de um gesto aparentemente simples: organizar décadas de registros caseiros filmados e transformá-los em narrativa. Vídeos domésticos, aniversários, crianças crescendo, encontros familiares, imagens que poderiam permanecer apenas como memória privada ganham aqui o status de material cinematográfico. A montagem opta por uma progressão linear, criando a sensação de que acompanhamos não apenas uma família, mas imagens sendo atravessadas por um período histórico.
A família de classe média é comum e humana, composta de tudo que também tivemos nos anos 90 e 2000: risos, festas, tradições familiares. Nada ali parece destoar do imaginário afetivo de qualquer espectador: risos, festas, conflitos silenciosos, pequenos rituais cotidianos. O filme constrói, com precisão, um espaço de identificação confortável, quase acolhedor, onde não há sinais evidentes de radicalismo, violência simbólica ou discursos políticos.

Essa sensação de normalidade não é acidental. O filme aposta na ideia de que o cotidiano, quando visto de dentro, raramente se apresenta como ameaça, com uma neutralidade sempre aparente. Quando a obra se encaminha para seu desfecho, essa construção cuidadosamente estável é abruptamente colocada em crise. As figuras, antes associadas ao afeto e à memória, passam a ocupar um outro lugar simbólico, ocasionando em um choque profundamente desconfortável, pois obriga o espectador a confrontar a proximidade entre o privado e o político.
Meu Tio da Câmera sugere de forma silenciosa que certos posicionamentos políticos não surgem necessariamente de uma criação visivelmente autoritária ou violenta, mas de valores que já habitam o indivíduo muito antes de se tornarem discurso público. Diversas famílias aparentemente comuns e acolhedoras escondem valores tóxicos e extremistas, que são colocados para fora quando o contexto político permite. É estranho pensar que certos movimentos políticos são apenas catalisadores da fácil expressão de um sentimento já intrínseco nas pessoas. O filme finaliza com um reflexão que foi palco de muitos debates e conversas na Mostra de Cinema de Tiradentes, se tornando um dos documentários mais falados nessa edição de 2026.
Crítica por Pedro Gomes.
Filme assistido na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes (2026)
Meu Tio da Câmera
Brasil, 2026, 77min.
Direção: Bernard Lessa
Roteiro: Bernard Lessa
Produção: Bernard Lessa e Amanda Chabudé
Direção de Fotografia: Bernard Lessa
Música: Natália Dornelas












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