Um misto de ousadia, experimentalismo e coragem.
O longa de Denise Vieira foi o primeiro que assistimos na Mostra de Cinema de Tiradentes e já deixou sua marca logo de início. A narrativa se passa em um ambiente distópico, onde um grupo de repressores conhecidos como “Lanternas” persegue mulheres que vagam pelas ruas durante a noite. Rubia se torna alvo dessa violência quando o comboio em que viajava quebra, forçando-a a buscar refúgio no bordel de uma misteriosa senhora chamada Margô. A partir desse encontro, o filme costura elementos de suspense, thriller e referências ao cinema pornográfico para construir uma história surreal, fantasiosa e inquietante.
O que mais chama atenção no longa-metragem é a forma como a fotografia e a trilha sonora se articulam para construir o clima de tensão. A luz, muitas vezes em tons de vermelho, junto dos enquadramentos fechados, reforça a sensação constante de perigo e vigilância. Já a trilha sonora conduz o suspense de maneira quase hipnótica, ampliando o desconforto e o mistério que atravessam a narrativa. Esse conjunto leva o espectador a uma experiência sensorial intensa, em que a história avança envolta em segredos e em uma atmosfera quase alucinógena.

Talvez a obra funcione melhor como um gesto político e estético do que como uma narrativa tradicional. “Sabes de Mim, Agora Esqueça” aposta na sugestão constante e na recusa à explicação, construindo um universo em que o sentido não é entregue, mas insinuado. Essa escolha pode ser potente para parte do público, justamente por provocar interpretações múltiplas, mas também pode soar vazia para quem busca maior envolvimento narrativo ou desenvolvimento dramático.
Nesse contexto, o erotismo aparece menos como espaço de prazer e mais como um mecanismo de poder e controle. Os corpos em cena não são apresentados apenas como territórios de desejo, mas como superfícies de vigilância, dominação e sobrevivência. O filme parece interessado em tensionar o olhar do espectador, colocando-o diante de imagens que talvez possam desconfortar mais do que seduzir.
É inegável a segurança com que Denise Vieira conduz sua proposta. Trata-se de um filme consciente de suas escolhas, que não busca agradar ou facilitar a leitura, mas sustentar um discurso próprio. Ao apostar mais na atmosfera do que na narrativa, a obra se afirma como um trabalho autoral, experimental e provocador.
Crítica por Pedro Gomes.
Filme assistido na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes (2026)
Sabes de Mim, Agora Esqueça
Brasil, 2026, 96min.
Direção: Denise Vieira
Roteiro: Denise Vieira
Elenco: Pietra Sousa, Cida Souza, Aysha Layon
Produção: Maria Tereza Urias, Denise Vieira
Direção de Fotografia: Victor de Melo
Música: Maíra Romero
Classificação: 18 Anos
Distribuição: Embaúba Filmes












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