Eagles of the Republic - Imovision (2025) | Imagem: Reprodução TMDB

Crítica | Eagles of the Republic (Águias da República)

Águias da República e o teatro do poder egípcio.

 

Usar da metalinguagem no cinema é um artifício muito interessante, especialmente quando se pretende falar sobre realidades sócio políticas conturbadas. ‘’Águias da República”, o mais novo filme de Tarik Saleh, diretor sueco de origem egípcia, aposta na criação de um filme dentro do filme para retratar os aspectos intrincados e complexos da realidade egípcia, sob o comando do Presidente Abdul Fatah Khalil Al-Sisi. Na trama, o mais famoso e adorado ator egípcio George Fahmy é, sob circunstâncias sobre as quais ele não tem muita escolha, coagido a interpretar o Presidente do país em um filme autobiográfico e de aspectos claramente propagandistas. Inteirando-nos acerca da realidade atual do grande país africano, entendemos que a figura presidencial retratada no filme é, de fato, quem ocupa a sua liderança desde 2014, fazendo-nos questionar até onde vai a realidade e a ficção nesta nova trama. E este aspecto é o que torna o filme interessante.

Não se trata de um documentário ou um filme híbrido. “Águias da República” é, desde já aqui colocado, um filme de ficção. Entretanto, a forma como aborda figuras e eventos reais da sociedade egípcia tornam a narrativa mais cativante e interessante a cada nova circunstância. Uma rápida pesquisa nos permite encontrar dados referentes ao governo egípcio e suas características principais. Um governo com aspectos ditatoriais e lideranças militares, e que se pretende inovador e patriota. Um governo cuja interferência na indústria audiovisual e cinematográfica nacional – que por muitos é considerada a “Hollywood Árabe” – se mostra clara e evidente. Estes dados, pois, permitem-nos compreender as escolhas narrativas e estéticas de Saleh.

Eagles of the Republic – Imovision (2025) | Imagem: Reprodução TMDB

No filme, o protagonista George Fahmy é visto pelo seu público como o “Faraó das Telas”. Durante anos, seus filmes foram consumidos e adorados por toda a nação, fazendo dele um astro cuja fama se assemelha a astros da grande era de ouro do cinema egípcio, como Omar Shariff (Laurence da Arábia). É justamente a sua fama, misturada a uma atual decadência em sua carreira, que faz com que ele seja abordado pelas autoridades políticas para interpretar Al-Sisi. Nada, contudo, em suas características físicas, o coloca mais longe do presidente. Enquanto Fahmy é alto, esbelto e com fartos cabelos, Al-sisi é baixo, atarracado e careca. Entretanto, a escolha é calculada. Não se quer o Presidente enquanto sua imagem verdadeira: o que se quer é a imagem de Fahmy para propósitos totalmente publicistas. Uma imagem para a venda de um ideal.

Houve rumores de que Al-sisi – o real – quisesse a feitura de um filme sobre a sua persona, entretanto, o filme nunca chegou a se realizar. O que Saleh faz aqui, portanto, é imaginar, à sua maneira, como seria se esta realidade se fizesse presente.

Eagles of the Republic – Imovision (2025) | Imagem: Reprodução TMDB

A forma como o diretor constroi a trama política é bastante intrincada. Com aspectos de filmes de espionagem, suspense e sátira, somos inseridos em um universo totalmente controlado pela censura militar, o que, para nós brasileiros, possui muitas semelhanças com nossa história recente e também com os filmes que têm nos lançado aos olhos do mundo. Saleh nos mostra como a realidade egípcia é manipulada pelos seus governantes, especialmente quando são eles os responsáveis pelo que se produz de conteúdos audiovisuais no país. Não há escapatória, a menos que se queira se manter vivo – e no caso de Fahmy, ver a sua figura pública não ser jogada – sem metáforas – na vala.

Este não é o primeiro filme de Saleh sobre o Egito. “‘Águias da República” é o terceiro de uma trilogia intitulada por ele de “Trilogia do Cairo”, sendo “Incidente no Nile Hilton” e “Garotos do Céu” os filmes anteriores, todos tendo o país como plano de fundo, bem como o protagonismo de Fares Fares, ator que interpreta George Fahmy no último filme.

Eagles of the Republic – Imovision (2025) | Imagem: Reprodução TMDB

Retratar uma realidade tão delicada como a do Egito requer coragem. Mas acima de tudo, requer também meios efetivos para tal. Saleh é, apesar de suas origens egípcias, sueco. O filme é uma co-produção sueca com França e Dinamarca, países cujas realidades sócio políticas são diametralmente opostas às do Egito. O filme foi gravado na Suécia e na Turquia, uma vez que uma produção com esta temática não seria viável em seu país diegético.

“Águias da República” se faz como um filme fictício, mas ao mesmo tempo manifesto, deixando à mostra as nuances mais presentes “de fora” da narrativa, o que se vê para além da quarta parede.

 

Crítica por Bianca Rolff.

 

Eagles of the Republic | Águias da República
Dinamarca/Finlândia/França/Suécia, 2025, 129min.
Direção: Tarik Saleh
Roteiro: Tarik Saleh
Elenco: Fares Fares, Lyna Khoudri, Zineb Triki
Produção: Linda Mutawi, Johan Lindström, Alexandre Mallet-Guy
Direção de Fotografia: Pierre Aïm
Música: Alexandre Desplat
Classificação: 14 Anos
Distribuição: Imovision

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