A depressão pós parto em um exagero estilístico.
No novo filme da aclamada diretora Lynne Ramsay, Grace acaba de ser mãe pela primeira vez. Aspirante a escritora, decide sair de Nova Iorque em busca de uma vida mais calma e se muda com a família para a antiga casa de infância do marido, numa zona rural de Montana. Aos poucos, começa a enfrentar sentimentos de isolamento e sofrimento psicológico. Com a saúde mental em declínio no período de pós-parto, a realidade vai levando o casamento a um território inquietante e imprevisível.
A diretora e os roteiristas utilizam do surrealismo para contar a história, utilizando imagens intensas, melodrama, momentos grotescos e surtos comportamentais muito caricatos, o que dá à obra um aspecto de desordem. Essa escolha transforma um espectro clínico em espetáculo, beirando a banalização.

A depressão pós-parto, na vida real, não costuma ser um vendaval de gestos violentos. Ela é, em grande parte, um esvaziamento. Um cansaço profundo. Um sentimento de desconexão com o bebê e com o mundo, muitas vezes imperceptível para quem está de fora. Ao usar o delírio como linguagem, Ramsay aproxima a depressão de uma psicose. É uma escolha estética válida, coerente com sua filmografia, mas que, no contexto da saúde mental materna, pode ser problemática.
A obra se torna uma sequência de surtos da protagonista principal e na tentativa de seu marido de lidar com esse ciclo de explosões. Os surtos de Grace não têm linearidade nem lógica, e isso é o que torna o filme tão incômodo. Eles surgem como fragmentos de uma mente que está em colapso. No olhar dela, há o desespero de quem sabe que está perdendo o controle de seus próprios sentimentos, sendo dominada por raiva, medo e uma profunda apatia.
O filme utiliza muito do estilo “fever dream”, presente também em outras obras da diretora. Esse estilo é uma abordagem narrativa e estética no cinema que busca reproduzir a sensação de desorientação, intensidade emocional e fragmentação da percepção de alguém em estado extremo, como um sonho febril ou uma alucinação. Filmes nesse estilo preferenciam uma experiência emocional e sensorial, usando recursos visuais, sonoros e narrativos para colocar o espectador dentro da mente da personagem.
No caso de Die, My Love, o estilo fever dream se manifesta de várias formas: cortes abruptos, sobreposição de imagens, descontinuidade temporal, som amplificado ou distorcido, e close-ups intensos que ampliam as emoções. O resultado é que o espectador não apenas observa o colapso de Grace mas sente essa instabilidade junto com ela.

Ao mesmo tempo, é impossível negar o impacto artístico de Die, My Love. A câmera traz beleza na desordem, e a equipe técnica constroe um universo visual que nunca é neutro, a estética do filme é o espelho da protagonista. Jennifer Lawrence entrega aqui uma atuação digna de aplausos, que consome a atriz e deixa o espectador sem ar, inevitavelmente evocando lembranças de seu desempenho em Mãe! (Mother!, 2017), de Darren Aronofsky.
Robert Pattinson também transmite momentos de colapso emocional diante da própria impotência. Ele não surta de forma explosiva, como Grace, mas sua frustração e desespero aparecem quando ele se vê cada vez mais imerso nas loucuras de sua esposa sem ter a mínima noção do que fazer. A química dos dois protagonistas, seja nos momentos de paixão ou de tensão, é o ponto de mais alta qualidade no longa.

No fim, Die, My Love é um filme sobre o abismo entre a maternidade idealizada e a maternidade real, mas retratado de forma surrealista, como um fever dream intenso que nos joga no caos emocional da protagonista. Esse extremismo acaba exagerando nos sintomas da depressão pós-parto, tornando-os mais espetaculares do que reais.
Crítica por Pedro Gomes.
Filme assistido no 27ª Festival do Rio – Rio de Janeiro Int’l Film Festival (2025)
Morra, Amor | Die, My, Love
Estados Unidos, 2025, 119min.
Direção: Lynne Ramsay
Roteiro: Enda Walsh, Lynne Ramsay, Alice Birch
Elenco: Jennifer Lawrence, Robert Pattinson, LaKeith Stanfield
Produção: Martin Scorsese, Jennifer Lawrence, Justine Ciarrocchi
Direção de Fotografia: Seamus McGarvey
Música: George Vjestica, Raife Patrick Burchell, Lynne Ramsay
Classificação: 16 anos
Distribuição: Paris Filmes











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