Os Malditos - ZETA FILMES

Crítica – Os Malditos (I Dannati)

A guerra como fragilidade e contemplação.

Roberto Minervini, conhecido por seu olhar documental sobre realidades marginalizadas, faz em Os Malditos (The Damned) uma incursão singular ao gênero de guerra, sem se render aos elementos narrativos e cinematográficos clássicos do épico histórico. Exibido na mostra Un Certain Regard em Cannes, onde rendeu ao diretor o prêmio de Melhor Direção, o longa reafirma sua marca autoral ao filmar a Guerra de Secessão com proximidade, fragilidade e contemplação.

Desde a primeira cena, fica claro que Minervini se interessa menos pela grandiosidade das batalhas e mais pela humanidade e intimidade dos soldados. Sua câmera na mão, acompanha os homens como se o espectador fosse mais um membro do grupo de soldados: caminha, corre, hesita, transmite força e instabilidade, espelhando a experiência física e emocional dos personagens. Ao mesmo tempo, adota uma postura observativa, registrando momentos despretensiosos e íntimos, como conversas ao redor da fogueira ou gestos banais do cotidiano.

Os Malditos – ZETA FILMES (2025)

A escolha por enquadramentos próximos e lentes que fixam os rostos dos personagens cria uma atmosfera quase documental. A câmera é colocada na altura dos olhos, como se compartilhasse daquela vivência, tornando-se uma presença silenciosa que observa e participa. Essa abordagem lembra a estética contemplativa de “Nomadland”, em que o ritmo lento e o registro das pequenas ações importam mais do que grandes reviravoltas narrativas.

Entre marchas silenciosas por territórios gelados, os soldados encontram tempo para reflexões e confidências. Falam de suas origens, crenças, dúvidas e medos. Essas conversas, filmadas com simplicidade, revelam as relações que se constroem em meio à precariedade da guerra. É justamente no contraste entre o cotidiano banal e a iminência da morte que o filme encontra sua força.

Os Malditos – ZETA FILMES (2025)

O realismo de Minervini não suaviza a brutalidade do conflito: pelo contrário, ao expor a vulnerabilidade dos corpos diante do frio, da fome e da espera, ele revela a guerra como uma experiência de sobrevivência frágil e inevitavelmente marcada pela perda. “Os Malditos” não é sobre heroísmo ou feitos militares, mas sobre a suspensão do tempo, o peso da espera e a crueza da existência em meio ao caos.

Assim, o diretor oferece um filme de guerra que é, ao mesmo tempo, anti-guerra: um mergulho observacional que substitui a glória pela introspecção, a ação pela contemplação, e a grandiosidade pelo íntimo. Um cinema que convida mais a sentir do que a julgar, e que transforma o espectador em testemunha silenciosa de uma travessia marcada por fragilidade, resistência e sobrevivência.

Os Malditos – ZETA FILMES

 

Crítica por Matheus Monteiro.

 

Os Malditos | I dannati
Bélgica, Itália, Singapura, 2025, 88min.
Direção: Roberto Minervini
Roteiro: Roberto Minervini
Elenco: Duncan Vezain, René W. Solomon, Chris Hoffert
Produção: Paolo Benzi, Denise Ping, Lee Thomas Ordonneau
Direção de Fotografia: Carlos Alfonso Corral
Música: Carlos Alfonso Corral
Classificação: 12 anos
Distribuição: Zeta Filmes

 

 

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