Juliette Binoche brilha em drama sobre privilégio, culpa e falsas amizades.
Marianne Winckler (Juliette Binoche) é uma mulher divorciada que busca entre cansativas entrevistas de emprego um novo trabalho como faxineira para recomeçar sozinha sua vida em uma cidade pequena. Uma mulher que se esforça ao máximo em seu cansativo emprego braçal somente para conseguir um lugar para descansar – bem mal – a noite. Pelo menos é nisso que acreditamos nos primeiros minutos de filme.
Como o próprio título sugere, Marianne vive entre dois mundos; ela na realidade é uma escritora, que busca mergulhar de cabeça nesse mundo desconhecido pela mesma, para escrever seu mais novo livro, que deseja retratar a precariedade dessas pessoas. Entretanto, o que ela não imaginava era criar uma forte conexão entre as verdadeiras trabalhadoras, entrando em um dilema que ela mesma construiu sem imaginar o quanto o seu emocional iria suportar.

Emmanuel Carrère conduz a adaptação da crônica social de Florence Aubenas, no título original Le Quai de Ouistreham, de forma leve, mas que em certos momentos, parece se perder um pouco do seu real objetivo. Vemos a vida dura que essas mulheres levam, e mesmo assim seguem com um sorriso no rosto, mas ao mesmo tempo, o filme poderia abordar mais a dentro sobre a real vida dessa classe na sociedade, seu papel é tão importante, e ainda assim tão menosprezado, algo que não precisamos ir tão longe quanto a França para reconhecermos tal injustiça.
Seguimos a partir da maravilhosa atuação de Juliette Binoche, a socialização de Marianne em meio a esse novo mundo que ela se encontra, acompanhada sempre de suas pesquisas às escondidas. Ela cria um vínculo em especial com duas colegas de trabalho: Christèle e Marilou, que abrem as portas à nova amiga e a ajudam no que puderem. Ao decorrer que essa amizade vai crescendo e se tornando cada vez mais forte, Marianne se sente culpada, mas não vê alternativa, senão seguir com seu principal objetivo.

Apesar de a personagem ter tudo para que sentimos raiva pela injustiça que essa está causando, Juliette Binoche atua de maneira tão íntima, tão comovente, que compreendemos o seu lado na mesma proporção que queixamos pela injustiça causada a Marilou, e principalmente a Christèle – com a estreante atriz Hélène Lambert, que trabalha graciosamente – que ainda que seja quem se torna mais próxima de Marianne, reconhecemos certo preconceito e disconfiança pela diferença entre as classes, da protagonista para com sua amiga.
A obra nos leva a crer que em algum instante o segredo de Marianne será revelado, porém o relacionamento entre as três personagens é tão belo, que não é possível ansiar por esse momento. Ao ficarem presas no cruzeiro em que trabalham, um conhecido de Marianne a reconhece e a desmascara em frente a Christèle, que vê toda sua confiança com a amiga como nada mais que uma brincadeira.

Poderia dizer que este é o momento mais avassalador do filme, porém em uma brusca quebra de tempo, com seu livro já publicado, vários de seus amigos e colegas de trabalho apoiando seu mais novo projeto, e vendo como sua visibilidade agora cresce, na esperança de reconhecimento, e até mesmo humanização, contempla-se a falta das duas grandes companheiras de Marianne, não é preciso grandes explicações para compreender o que as jovens pensam a respeito de sua amiga (ou ex-amiga) autora. Porém, em suas cenas finais, o diretor reúne novamente as três mulheres, ao que se dá um ponto final em sua história. Marianne não é como elas, elas não pertencem ao mesmo mundo.
Entre Dois Mundos é um drama leve que traz importantes reflexões não somente acerca dessa classe trabalhadora tão sofrida e tão esquecida pelo resto da sociedade, como também a repetitiva e ilógica seleção de vagas de grandes e pequenas empresas, com repetitivas perguntas sobre suas melhores e piores qualidades, seguidas por óbvias mentiras, até como as relações se desenvolvem em meio a grandes diferenças, podendo chegar a até mesmo o seu fim.
Crítica por Penelope Gussonato.
Entre Dois Mundos | Ouistreham
França, 2021, 107 min.
Direção: Emmanuel Carrère
Roteiro: Hélène Devynck, Emmanuel Carrère
Elenco: Juliette Binoche, Hélène Lambert, Louise Pociecka
Produção: Matthias Jenny, Emilien Bignon, Jean-Luc Ormières
Direção de Fotografia: Patrick Blossier
Música: Mathieu Lamboley
Classificação: À definir
Distribuição: Pandora Filmes











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