Crítica – Quando Chega o Outono (Quand vient l’automne)

Desconfiança paira em thriller dramático envolvente.

Quando Chega o Outono” mistura drama familiar com suspense psicológico ao acompanhar Michelle, uma idosa que leva uma aposentadoria tranquila perto de sua amiga de longa data, Marie-Claude. Ela aguarda ansiosamente a visita do neto Lucas durante as férias escolares, mas um incidente inesperado destrói seus planos, gerando desconfiança entre ela e sua filha, Valérie. Sentindo-se sem propósito, Michelle se vê ainda mais abalada com a chegada do filho de Marie-Claude, recentemente libertado da prisão, evento que desencadeia uma sucessão de segredos e reviravoltas.

Ozon conduz a narrativa de forma envolvente, mantendo o público intrigado até o último segundo na busca incessante por respostas. Seus personagens são autênticos e cheios de nuances, trazendo um realismo nas personalidades ali retratadas que faz com que a confiança do espectador seja constantemente desafiada. Não sabemos em quem acreditar, e o diretor joga com essa incerteza de maneira brilhante, nos mantendo em um constante estado de alerta.

Quando Chega o Outono – Pandora Filmes

O elenco entrega performances excelentes. A protagonista é interpretada com uma sutileza impressionante, transmitindo tanto fragilidade quanto força em seus momentos mais desafiadores. A relação entre ela e a filha, vivida com intensidade e precisão dramática, adiciona camadas de intrigas familiares à história. O filho de Marie-Claude recém-saído da prisão é interpretado com um misto de vulnerabilidade e ameaça que adiciona profundidade ao suspense, nos julgando por confiar ou não confiar na sua personalidade. O fato de não sabermos o que o levou à prisão é um truque extremamente certeiro de Ozon para nos fazer olhar para nossa capacidade julgadora apesar das incertezas.

O fato de um dos personagens centrais ser um ex-presidiário tentando se ressocializar nos leva a refletir sobre os desafios que as marcas que o passado deixam e os preconceitos que dificultam uma segunda chance. Ozon evita respostas fáceis, expondo as complexidades desse processo sem moralizar excessivamente.

Quando Chega o Outono – Pandora Filmes

A direção de arte e a fotografia transportam o espectador para a Borgonha, região francesa onde a história se passa. O uso magistral da paisagem rural contribui para a imersão na história, e esse contraste entre a beleza da localização e a atmosfera inquietante do filme reforça a sensação de que algo está sempre prestes a desmoronar.

Mesmo ambientando sua trama em um vilarejo isolado, Ozon evita qualquer monotonia. Ele constrói a tensão de forma gradual e explora o protagonismo da terceira idade sem clichês. A doçura das personagens contrasta com os eventos perturbadores que se desenrolam, levando o público a um dilema moral constante. Ozon não dita quem está certo ou errado, deixando essa reflexão a cargo do espectador. No fim, “Quando Chega o Outono” fala mais sobre nós do que sobre seus personagens, levantando questões sobre velhice, confiança e caráter, sem oferecer respostas definitivas.

Quando Chega o Outono – Pandora Filmes

O filme nos deixa fazer parte de enigma moral, onde saímos da sala de cinema com mais perguntas do que respostas. É um suspense que se sustenta não apenas pelo mistério, mas pelas relações humanas e pelos fantasmas e segredos do passado que cada personagem carrega. Com atuações memoráveis e uma direção precisa, Ozon nos entrega um filme que provoca, instiga e permanece na mente muito depois dos créditos.

 

Crítica por Pedro Gomes.

 

Quando Chega o Outono | Quand vient l’automne
França, 2024, 104 min.
Direção: François Ozon
Roteiro: François Ozon
Elenco: Hélène Vincent Josiane Balasko Ludivine Sagnier
Produção: François Ozon
Direção de Fotografia: Jérôme Alméras
Música: Sacha Galperine, Evgueni Galperine
Classificação: 14 anos
Distribuição: Pandora Filmes

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