Crítica – Trilha Sonora Para Um Golpe De Estado (Soundtrack to a Coup d’État)

Um complexo quebra-cabeças que ilustra a luta por liberdade e opressão.

Quando se pensa em uma narrativa documental clássica no cinema, tende-se por sua intrínseca característica, a atrelá-la a abordagens mais cruas e objetivas, numa tentativa de aproximação com a realidade. Documentaristas como Eduardo Coutinho se destacam nesse meio, como exemplares do imaginário popular do documentário cinematográfico. Ao longo do tempo, contudo, novas vertentes documentais foram surgindo, como as narrativas híbridas de Adirley Queirós, em que realidade e ficção se misturam para contar sobre um determinado lugar ou uma época específica. Ao assistirmos “Trilha Sonora para um Golpe de Estado”, filme de Johan Grimonprez indicado ao Oscar deste ano na categoria Melhor Documentário, temos um misto das características de documentários clássicos e modernos.

Valendo-se de arquivos de imagens, sons e registros escritos, “Trilha Sonora” constrói um complexo cenário dos anos 1960, durante a Guerra Fria e nos conta os últimos meses de tensões políticas e militares no Congo, que culminaram no assassinato de Patrice Lumumba, primeiro líder congolês eleito democraticamente e símbolo de resistência do país.

Soundtrack to a Coup d’État – Pandora Filmes (2024)

Assim como o seu contexto histórico, a narrativa é fragmentada e com muitas informações. Abordar de forma coesa e objetiva um mundo pautado em tensões constantes relacionadas a armamentos, conflitos velados, espionagens e exploração de povos e terras não é fácil. Dessa forma, “Trilha Sonora” possui um fio narrativo difícil, por vezes impossível de acompanhar com clareza. Entretanto, existe algo que torna a narrativa menos dura: a sua também complexa relação com a música.

Neste filme, entendemos como o jazz e os grandes artistas à época, como Louis Armstrong e Dizzy Gillespie se tornaram massa de manobra para os Estados Unidos da América em meio às negociações e planos na Guerra Fria relacionados ao Congo e ao continente africano como um todo. Vemos, através de relatos e imagens, como a música foi posta como forma de garantir uma cortina de fumaça apta a mascarar os acontecimentos políticos vinculados ao Congo e Lumumba, com especial atenção.

Soundtrack to a Coup d’État – Pandora Filmes (2024)

Trazendo um ritmo acelerado (mesmo com uma duração de 2h30), “Triha Sonora” causa propositalmente um acúmulo de informações certeiramente editadas. Com plots que vão e voltam no tempo, apresentando enredos paralelos e complementares, que se juntam no mesmo propósito, o filme cansa e impressiona na mesma medida. É como se dissesse ao mundo que não é simples entender a história, especialmente quando se tenta encobri-la.

Se por vezes nos sentimos perdidos (são muitos nomes, lugares e histórias entrelaçadas), também nos pegamos sem ar frente à conclusão iminente. Não conseguimos escapar ao que o passado já escreveu, mesmo querendo que o futuro fim do filme seja diferente. Os fragmentos se tornam grandes o bastante para causar emoção e comoção diante do inevitável e da tragédia.

Soundtrack to a Coup d’État – Pandora Filmes (2024)

Não se trata de um filme em que a trilha sonora é elemento de composição narrativa, apenas. Aqui, ela é personagem e possui rostos, corpos e vozes. É preciso ouvir para além dos ouvidos. É preciso ouvir com a alma e com a certeza de que, em mãos erradas, há quem tente usar da arte como meio de destruição. “Trilha Sonora para um Golpe de Estado” possui um contexto delimitado, mas caberia hoje em dia, como uma luva.

 

Crítica por Bianca Rolff.

 

Trilha Sonora Para Um Golpe de Estado | Soundtrack to a Coup d’État
Bélgica/França/Países Baixos, 2024, 150 min.
Direção: Johan Grimonprez
Roteiro: Johan Grimonprez
Elenco: Louis Armstrong, Malcolm X, Eva Gabor
Produção: Rémi Grellety, Daan Milius
Direção de Fotografia: Jonathan Wannyn
Música: Ranko Pauković
Classificação: 14 anos
Distribuição: Pandora Filmes

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