Crítica – Meu Bolo Favorito (کیک محبوب من)

Uma crítica pungente sobre nascer e viver em um universo pautado na poda da liberdade.

A recente celebração do Globo de Ouro nos colocou – para além da comum expectativa diante dos nomeados, vencedores e possíveis indicados ao Oscar – frente a uma grande reflexão, que é a do reconhecimento de atores em idades mais maduras, em especial atrizes. Vermos Fernanda Torres e Demi Moore receberem os troféus dourados, ao lado de tantas outras mulheres com carreiras sólidas e vivenciadas em longas décadas de dedicação às artes é um marco para uma possível mudança de perspectiva sobre a indústria cinematográfica, tão pautada no engrandecimento de figuras jovens.

Ao assistir “Meu Bolo Favorito” (کیک محبوب من), filme iraniano dirigido por Maryam Moghadam e Behtash Sanaeeha, esse mesmo ponto ressalta aos olhos já nos primeiros minutos de tela. Nada de protagonistas novos. A experiência de vida é essencial para a narrativa e para a compreensão de todo o contexto em que o filme se insere.

Meu Bolo Favorito – Imovision (2024)

Acompanhamos um recorte da vida de Mahin (Lili Farhadpour), uma mulher de setenta anos que vive sozinha e que espera ansiosamente pelo encontro anual com suas amigas. No encontro mais recente, Mahin se dá conta de que sua solidão talvez não precise ser tão grande, e que ela pode ir em busca de alguém para lhe fazer companhia e tornar sua vida mais iluminada. E assim ela faz. Tomando coragem e todas as precauções que ser mulher no Irã exige, convida Faramarz (Esmaeel Mehrabi), um taxista que conhece em um restaurante, para um encontro casual repleto de nostalgias e novidades.

Neste filme, vivenciamos a realidade de mulheres acima dos sessenta anos, em um país marcado por um presente repleto de restrições não só religiosas, mas voltadas ao modo de vida e pensamento. Um Irã de hoje, com sua Polícia da Moral que controla o modo como as mulheres se vestem nas ruas e a forma com que se relacionam entre si e com outras pessoas. Em puro contraste a isso, vemos mulheres e homens maduros, cujo pensamento se afasta das políticas adotadas no país e que lutam, dentro de suas possibilidades, contra o regime implementado, tentando fazer com que suas liberdades possam ser de alguma forma preservadas e exercidas.

Meu Bolo Favorito – Imovision (2024)

Em termos de proposta artística, nada de firulas cinematográficas. Com escolhas simples, planos sem movimentações complexas, o filme se sustenta em um roteiro cirúrgico e atuações memoráveis, no sentido mais puro da palavra.

“Meu Bolo Favorito” consegue abordar tantas temáticas importantes em meio a uma grande história de amor. Seja amor ao outro ou amor à própria existência, sentimos enquanto espectadores um misto de emoção e euforia ao vermos o quanto Mahin se mostra ousada em suas escolhas, para si e para outrem. Uma crítica direta ao fundamentalismo político-religioso, encoberta pela magia do cinema, tal qual a cobertura de um bolo doce, mas com toques ácidos de especiarias. Talvez uma forma de mostrar ao mundo que é difícil podar árvores quando se tem um jardim repleto de espécies com raízes e galhos firmes.

 

Crítica por Bianca Rolff.

 

Meu Bolo Favorito | کیک محبوب من
França/Alemanha/Irã/Suécia, 2024, 97 min.
Direção: Maryam Moghaddam, Behtash Sanaeeha
Roteiro: Maryam Moghaddam, Behtash Sanaeeha
Elenco: Lily Farhadpour, Esmaeel Mehrabi, Mansoureh Ilkhani
Produção: Etienne de Ricaud, Behtash Sanaeeha, Christopher Zitterbart
Direção de Fotografia: Mohamad Hadadi
Música: Henrik Nagy
Classificação: 12 anos
Distribuição: Imovision

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