Crítica – Black Tea: O Aroma Do Amor (以愛之茗)

O universalismo dos sentimentos sob o olhar delicado da dispersão.

A universalidade do cinema sempre é uma temática interessante ao pensamento crítico. Uma arte capaz de atingir a todos, em todos os cantos do mundo, partindo de pontos de vista distintos e, ainda assim, versando sobre os sentimentos presentes em todo lugar. Há quem discorde deste recorte, mas indubitavelmente, o cinema de Abderrahmane Sissako ilustra esta perspectiva, e “Black Tea”, seu mais novo filme, traz essa universidade de maneira tocante e paulatinamente avassaladora.

Black Tea: O Aroma Do Amor – Imovision (2024)

Falar sobre a diáspora africana pode ser algo complexo, mesmo sob um olhar de dentro. As perspectivas sobre a necessidade de se sair de seu país/continente em busca de uma vida melhor, em que sonhos possam se tornar realidade, são múltiplas. A escolha de Sissako, neste filme, mostra-se, ao mesmo tempo, delicada e ousada. Ao acompanharmos os desdobramentos da ida de Aya (Nina Mélo) para Guangzhou, na China (conhecida por Cidade Chocolate, devido à grande presença africana), saída da Costa do Marfim após uma cerimônia de casamento mal sucedida, vemo-nos imersos em uma globalização dos sonhos e das perspectivas. Aya trabalha em uma loja de chás, e como ela mesma afirma, fazer um chá não é algo simples. É um processo lento, que exige tempo, observação e, talvez acima de tudo, sentimento. Esse processo se torna a maior metáfora para as relações em “Black Tea”.

Black Tea: O Aroma Do Amor – Imovision (2024)

Com uma narrativa que parece seguir o fluxo de vida por uma perspectiva muito mais oriental do que o imediatismo ocidental ao qual estamos acostumados, “Black Tea” aprofunda nas relações humanas como o abraço de uma bebida quente em dias de chuva. Fala sobre amor, respeito, tradições, preconceitos e sonhos quase como se fizéssemos parte dos anseios dos personagens e nos víssemos neles espelhados.

Black Tea: O Aroma Do Amor – Imovision (2024)

Se iniciamos falando sobre universalidade, cabe aqui retomarmos este ponto, enquanto força do filme e do cinema de Sissako. Há mais de um idioma predominante na história, assim como as nacionalidades múltiplas e seus variados pontos de vista. Cada personagem se torna protagonista se o olharmos sob a perspectiva de sua cultura. Ainda assim, os dramas possuem semelhanças com os nossos próprios, independentemente de em qual parte do mundo se desenrolem. Somos, ao longo do tempo, embebidos por eles. “Black Tea” não é um filme para se ver com pressa. É para se deixar perceber e apreciar. Assim como a milenar arte dos chás.

 

Crítica por Bianca Rolff.

 

Black Tea: O Aroma do Amor | 以愛之茗
China, 2024, 110 min.
Direção: Abderrahmane Sissako
Roteiro: Kessen Tall, Abderrahmane Sissako
Elenco: Nina Mélo, Chang Han, Wu Ke-Xi
Produção: Vincent Wang, Vincent Quénault, Olivier Père
Direção de Fotografia: Aymerick Pilarski
Música: Armand Amar
Classificação: 12 anos
Distribuição: Imovision

 

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