Crítica – Pasárgada

Dira Paes transforma carta de amor à mãe natureza em um grito de socorro.

O filme marca a estreia louvável de Dira Paes como roteirista e diretora e traz em sua trama Irene, uma ornitóloga, solitária em seus 50 anos que, durante seu projeto de pesquisa no meio da floresta, redescobre sua tropicalidade após conhecer Manuel, um jovem guia que fala a língua dos pássaros e traz à tona seus dilemas como mulher, mãe e profissional. Dira revela um talento para o cinema ao dar asas a essa obra sensível e profunda. “Eu queria experienciar a ideia original, a construção do roteiro, pré-produção, a filmagem, a montagem e a finalização”, disse a diretora após a exibição do filme.

“Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei”

“Pasárgada” é uma experiência completamente imersiva e sensorial, que utiliza a floresta e a natureza como metáforas visuais e auditivas para as complexas questões emocionais da protagonista. O filme explora a relação muitas vezes destruidora entre os humanos e o ambiente natural, ecoando o poema “Vou-me embora pra Pasárgada” de Manuel Bandeira, cuja busca utópica por um lugar de felicidade reflete o desejo de Irene por fuga e reconexão consigo mesma.

Pasárgada – Bretz Filmes/Muiraquitã Filmes (2024)

Um dos elementos mais poderosos do filme é o som. O trabalho sonoro, que venceu o troféu de Melhor Design de Som no Festival de Gramado 2024, é uma parte vital da imersão, que transforma completamente o espectador. Esse cuidado em gravar os sons da natureza, sejam eles pássaros cantando, folhas, água corrente, deixa a trama tão viva e intensa que mesmo em silêncio, o filme parece conversar com o espectador. O foco no som destaca a natureza como um personagem ativo na obra, além de refletir a profissão de Irene, que para o bem ou para o mal, lida diretamente com o canto dos pássaros.

A escolha do título não é apenas uma referência ao poema, mas uma reflexão sobre o desejo utópico humano de um paraíso pessoal, um lugar onde a felicidade seja eterna. Acontece que esse desejo é totalmente ilusório. A floresta, com sua vasta beleza, traz uma dualidade: enquanto parece um lugar de fuga e plenitude, ela também se torna um cenário de isolamento e de confrontação da personagem com seus próprios limites como mulher e mãe. Dira Paes constrói essa dualidade com maestria, utilizando planos abertos para mostrar a imensidão da floresta e primeiros planos na protagonista, evidenciando sua solidão. As cenas que foram filmadas com drones nos proporcionam uma visão como se fosse dos próprios pássaros que são estudados, ampliando essa sensação de estar “voando” sobre a grande Mata Atlântica. Essa estratégia criativa pode ser interpretada como uma metáfora visual para a busca de Irene por liberdade.

Pasárgada – Bretz Filmes/Muiraquitã Filmes (2024)
“Eu sou tropical!”

Com coragem, o texto toca em questões ambientais e sociais, abordando de forma extremamente responsável o tráfico internacional de animais, o terceiro maior tráfico do mundo. Estamos assistindo a uma vilã que não soa como uma vilã. Ela é humana, ela sofre, ela tem objetivos e dores, mas exatamente pelo fato de ser humana é que ela é uma destruidora em potencial. Ao explorar a degradação da natureza pelas mãos humanas, o filme traça um paralelo com a autodestruição da nossa própria espécie. Ao destruir a natureza, estamos destruindo a nós mesmos. Nós somos suicidas em potencial. Somos a natureza e ao mesmo tempo, a destruimos. O ser humano é uma máquina autodestrutiva.

A protagonista ao longo da trama revela sua incapacidade de expressar afeto, e isso é o coração dessa reflexão. O fato de ela ter se afastado de sua família, incluindo sua filha, é um resultado desse problema e também um espelho da sua própria solidão e de seus desejos não concretizados. Manuel, o jovem guia que fala a língua dos pássaros, serve como contraponto a Irene, trazendo à tona suas emoções reprimidas e dúvidas existenciais. Até mesmo seus desejos sexuais não são concretizados, mostrando que eles existem mas são uma parte oculta e inacessível dela.

Pasárgada – Bretz Filmes/Muiraquitã Filmes (2024)

Dira Paes conduz esse longa-metragem de forma contemplativa e sem pressa, demonstrando um cuidado e um carinho muito especial com sua obra, além do domínio claro da linguagem cinematográfica. Sua personagem trata a floresta tanto como uma prisão quanto um refúgio, e essa dualidade é mostrada com uma grande profundidade durante o filme. “Pasárgada” é uma estreia marcante e corajosa, que utiliza a natureza não apenas como cenário, mas como uma personagem e uma metáfora profunda da condição humana.

“E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.”

 

Crítica por Pedro Gomes.

Filme assistido no 18ª CineBH International Film Festival 

 

Pasárgada
Brasil, 2024, 90 min.
Direção: Dira Paes
Roteiro: Dira Paes
Elenco: Dira Paes, Humberto Carrão, Cássia Kis
Produção: Pablo Baião, Dira Paes, Eliane Ferreira
Direção de Fotografia: Pablo Baião
Música: O Grivo, Fafá de Belém
Classificação: 14 anos
Distribuição: Bretz Filmes/Muiraquitã Filmes

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