Publicado em 28/08/2019 Às 5:02 PM
Crítica | Bacurau (2019)
João Vitor Guimarães

É muito difícil falar de Bacurau sem ser influenciado pelo seu zettgeist. Filme-evento, já habita o imaginário popular há tempos, já que Aquarius do co-diretor Kléber Mendonça Filho foi o último grande acontecimento do nosso cinema(acontecimento, não só filme). Exibido em Cannes, boicotado pelo governo, aclamado pela crítica, Aquarius confirmava que KMF não era um diretor de curtas que deu sorte em O Som ao Redor. 

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Dessa vez além de exibido também foi premiado no festival francês. Elogiado e descrito como western distópico e alegoria política(como uma terça-feira comum nossa) Bacurau nasceu em meio a muito barulho do qual deveria se justificar. Se sentar perante ao telão de uma sala escura imaginando pela última vez o que seria desse filme foi um grande exercício de ansiedade para mim.

E então, estávamos no espaço, Não Identificado de Gal Costa começou a tocar. Como se o próprio KMF soubesse disso tudo e apenas dizia para nós relaxarmos e curtir. Isso até a cena seguinte, onde a câmera tremula nos faz forçar as vistas para acompanhar um caminhão que está passando por cima de caixões vazios. Estamos em casa, em zona de guerra.

A Teresa de Bárbara Colen é quem abre as portas do povoado para nós. Carregada de vacinas ela retoma para casa na ocasião do velório de sua avó, a líder comunitária Dona Carmelita. Sem ela, o povoado recebe a visita do prefeito que não acha ninguém com quem deixar a tonelada de livros usados. E dali as coisas caem como pedras sobre o povo.

Que o filme teria uma mensagem política forte era de conhecimento geral, minha preocupação era ela ser maior que sua qualidade narrativa, mas isso caiu por terra. A narrativa do filme é engajante não apenas pelo seu lado político, mas também porque aquele universo era vivaz e verossímil. Divertido quando havia a fagulha, tenso quando necessário e nunca óbvio. A mensagem não é dada por discursos shakesperianos-políticos-panfletários e sim nas ações gerais que fazem do filme, filme. Todo ato humano é político, torná-lo que o faria falso. 

A obra é um caldeirão raivoso, que fala com sinceridade, que entrelaça suas referências fílmicas com o que o Brasil é e precisa ser. É meio Sete Samurais, meio Liberty Valance, mas sem nunca deixar de ser Bacurau. 

Também não é difícil de digerir, não poderia ser mais simples inclusive. Provavelmente por isso os americanos não gostaram. As nuances existem, mas não tem nenhuma que condene ou corrompa o que o povo faz. Lunga não exagera, Lunga apenas retribui. A bola que jogam pra ele, ele chuta de volta como bom menino brasileiro.

Bacurau cumpre suas promessas, entrega um thriller tenso, dinâmico, cheio de personagens para se torcer em um retrato brasileiro de orgulhar, de sair do cinema de peito cheio como o cidadão comum não deve ter desde o pentacampeonato. Pode não agradar a todos, mas não será por falta de tentativa, pois fala com todas as classes em cores vivas e linguagem que todos entendem. Parasite toma a dianteira como filme do ano, e Vida Invisível nos representará nos Oscars, mas Bacurau é quem irá capitanear o cinema brasileiro da década daqui pra História.

5/5

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